A herança de Álvaro Amaro

Quando há um mês Álvaro Amaro se apresentou perante os jornalistas para justificar a sua saída da Câmara da Guarda prometeu que só o faria depois de, em Assembleia Municipal, apresentar contas aos guardenses. Afinal não foi assim: Álvaro Amaro fugiu! Alguns dias antes da Assembleia Municipal, onde prometera estar, Amaro suspendeu o mandato (não resignando porém, para já, de continuar a ser o presidente da Câmara até às eleições, não vá o diabo tecê-las… o balanço teremos de o fazer, afinal, apenas quando definitivamente deixar de ser o edil da Guarda). E o autarca, agora número cinco da lista do PSD às Europeias, defraudou os que aguardavam pela prestação de contas e análise à gestão do último ano – quando já teria de ser evidente a sua “pegada”, a sua marca diferenciadora, a concretização dos projetos enunciados e as suas consequências em termos de mudança, de dinamismo e de mensurar os resultados.
Não que se esperassem grandes apertos, até porque o PS navega à vista e não tem capacidade nem protagonistas para analisarem e argumentarem sobre os muitos erros e a assombrosa falta de dinamismo económico da cidade. Mas a “fuga” de Álvaro Amaro, atenuada pela falta de audácia do PS e pela destreza da maioria, não pode passar impune. E a análise critica às contas do município não pode ser atenuada apenas pelo facto de o novo presidente não ser o rosto dos últimos seis anos. O presidente da Câmara em exercício, Chaves Monteiro, traz um semblante positivo e representa a mudança, ou pelo menos uma “certa” mudança (e terá todas as dificuldades, e ainda a dificuldade acrescida de ter de enfrentar todos os dias os apaniguados e a herança de Amaro). Sobre ele recai uma grande expetativa em relação à normalização da vida democrática na Guarda e da concretização de algumas promessas pelas quais tem de fazer muito mais do que «flores e rotundas» – e apresentou-se bem preparado para fazer as suas alegações sobre as contas e as principais opções da Guarda, mas era Amaro quem tinha a obrigação de justificar a falta de expetativas da Guarda, o despovoamento do concelho (mais de 500 guardenses abandonam o concelho por ano; o concelho da Guarda perdeu cerca de três mil habitantes desde que Amaro ganhou a Câmara da Guarda em 2013!). E se nos anos anteriores havia argumentos para irritar o líder (que, desde 1985, foi «profissional da política»: dez anos como secretário de Estado da Agricultura, deputado, 12 anos à frente da Câmara de Gouveia e seis na da Guarda, agora segue para Bruxelas… e isso parece dar pedigree e impressionar os saloios), agora haveria muito mais: da incapacidade de reabrir o Hotel de Turismo à imensa dívida de 30 milhões às Águas de Portugal (não reconhecida, não negociada, mas existente e que os mais jovens, os que ficarem, um dia terão de pagar com juros) depois de seis anos a cobrar a água mais cara do país (ou quase) sem a pagar (em 2013 a Guarda devia 9 milhões agora deve 29 milhões; recebeu o dinheiro dos consumidores mas não pagou ao fornecedor…). Como em anos anteriores, no momento de analisar a prestação de contas, Henrique Monteiro (CDS) e Hugo Carvalho (PS) tiveram muito por onde pegar, e fizeram-no com muitos e bons argumentos. O presidente eleito, em “fuga”, responderia com a habitual prosápia, falando muito sem dizer nada, adjetivando os benefícios das festas, falando dos turistas que só ele via, da sua superioridade moral e política, elevando a autoestima dos guardenses e clamando contra a incompetência do tempo anterior, o tempo herdado do PS. Mas seis anos depois, já não se pode justificar tudo com a inércia e a incompetência da governação socialista. Por isso, Hugo Carvalho fez o trabalho de casa e arguiu de forma assertiva. A oposição não pode continuar refém do passado. Como o novo executivo não pode ficar refém da “habilidade” e ambição de Álvaro Amaro. Ou Chaves Monteiro consegue mudar o paradigma e apostar por uma nova dimensão ou terá de ouvir muitas vezes que os anos passam, mas as empresas não chegam, os guardenses partem e não regressam. Nos Censos de 2011 o concelho da Guarda tinha 42.126 habitantes. As estimativas da Pordata em 2017 foram de 39.486 residentes – seguindo a linha, neste momento o concelho terá cerca de 38.000 resistentes. A “fuga” de Álvaro Amaro, que nunca foi residente, nem nunca pagou impostos na Guarda, é a menos importante dos milhares de fugas a que a Guarda assiste em silêncio – com ele fugiram do concelho mais de três mil pessoas.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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