Como já é tradição na Vila do Carvalho (Covilhã), esta Páscoa comemorou-se com o tradicional jogo do carrabaço e nem a ameaça de chuva tirou os populares da rua no domingo. O jogo consiste em passar um cântaro de barro para outra pessoa, atirando-o para trás das costas, para que esta o agarre e não o deixe cair e partir.
Acompanhados do Grupo de Danças a Cantares local, que está encarregue da animação musical, os habitantes percorrem as ruas vila com o jogo e aproveitam sempre para dar “um pezinho de dança”. E quando se parte um cântaro aparece logo outro para dar continuidade à festa. Não se sabe bem quando começou esta tradição, mas os carvalhenses recordam que é um jogo antigo e que se praticava à segunda-feira de Páscoa após a visita pascal. Rui Bouceiro fala desta tradição como «uma explosão de alegria após a quaresma», onde todos saiam à rua. O ritual foi interrompido por alguns anos, mas o casal Mário Vaz e Ana Otília Leitão tentou recuperá-lo entre a família. «Houve um ano, na segunda-feira de Páscoa, saímos de casa com um cântaro de plástico e começamos a jogar e a cantar pelas ruas», recorda Ana Otília, segundo a qual, «na altura, as pessoas saíram à rua e vieram jogar connosco».
Já mais tarde, meados de 2000, a escola básica da Vila do Carvalho dedicou um ano às tradições, com a representação de algumas das festas da comunidade. Na Páscoa recriaram o carrabaço e desde esse ano que a Associação Amigos Vila de Mouros tomou conta da tradição e a realiza todos os anos. Para o presidente da associação, Ivo Garra, «todas as tradições devem ser recuperadas e esta é um delas, é a identidade de um povo», sublinhando que a iniciativa é uma mais-valia para a população carvalhense. Atualmente é a coletividade que oferece os cântaros, mas «nem sempre foi assim», explicou Mário Vaz. Antes compravam-se os cântaros na taberna que eram vendidos com vinho. «Primeiro bebiam o vinho e depois jogavam, quem deixasse cair o cântaro e o partisse já sabia que seria o próximo a comprar um novo», refere este carvalhense.
Tal como mandava a tradição, o carrabaço jogou-se depois da visita pascal, mas também esta é agora diferente. Em vez do padre este ano esteve o diácono e já não se visitam todas as casas da vila, apenas as coletividades que oferecem um lanche à população. No final, atiram-se rebuçados ao ar, e não são apenas os mais novos que os tentam apanhar gritando «aqui é o céu!».
Ana Eugénia Inácio


