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Nunca se é muito velho para aprender a ler e a escrever

Desde finais de fevereiro que os utentes do Centro Cultural, Social e Desportivo da Ramela (Guarda) ganharam uma nova ocupação: aprender a ler e a escrever. A ideia partiu de Vanda Sá Rodrigues, finalista de Animação Sociocultural no IPG, que ao fazer um levantamento percebeu que a maioria dos utentes era iletrada. A estudante conta com a ajuda de uma professora do ensino básico.

O relógio marcava 14h15 e, na sala, já estavam dez alunos prontos para iniciar os trabalhos. Segunda-feira no Centro Cultural, Social e Desportivo da Ramela, no concelho da Guarda, foi dia de aprender a letra “P”. Nesta “escola” a tarefa de Vanda Sá Rodrigues, estudante de Animação Sociocultural no IPG, e de uma professora voluntária, que pediu para não ser identificada, é ensinar os utentes da instituição a aprenderem a ler e a escrever.

Como na escola primária, também aqui há alunos com mais dificuldades e outros com mais facilidade em aprender. A única coisa que não escasseia é força de vontade para saber mais: «A diretora técnica diz que eles estão sempre a olhar para o relógio, é quase como ver as crianças quando vão para a escola», adianta a animadora, acrescentando que os aprendizes «gostam muito» das aulas. Dos sete dias da semana há três – segundas, quartas e sextas-feiras – dedicados à alfabetização e o projeto já começa a dar frutos. «Na Páscoa tivemos uma boa surpresa, pois uma utente escreveu o seu nome sozinha. Foi ótimo porque é alguém que precisa mesmo. Olhou para mim e começou a chorar», recorda, emocionada, Vanda Sá Rodrigues, para quem esse «é um dos pontos fortes» deste trabalho que está a ser acompanhado por Ana Lopes, a sua orientadora de estágio. «Podemos não ter o maior sucesso, mas que pelo menos um deles consiga identificar e escrever o seu nome, acho que já é positivo», sublinha a finalista.

Mas nem só de rosas se faz o caminho e também há obstáculos difíceis de combater: «Os problemas maiores são a idade porque todos eles têm entre 80 e 90 anos, e as dificuldades a nível da visão», refere a futura animadora, que lamenta que este projeto não tenha continuidade. «Não é em 400 horas de estágio que vamos conseguir saber se há sucesso. Já sentimos que há, mas poderia haver muito mais se o projeto continuasse», considera Vanda Sá Rodrigues. Na sua opinião a iniciativa poderia continuar «se houvesse outras instituições interessadas, fazer parcerias e contactar a Câmara Municipal ou até professores que estejam aposentados e tivessem vontade de ajudar». O ponto de partida deu-se no fim de fevereiro e a mentora do projeto contava com 17 alunos, «mas como as pessoas têm que tratar das hortas e dos animais» há dias em que são oito ou dez e noutros a sala enche com 15 pessoas, refere.

«Alguns sentem dificuldades nos exercícios porque vamos fazendo revisões e perdem o fio à meada», acrescenta a animadora, que ajuda em tudo, embora a preparação das aulas seja responsabilidade da professora. «Quando não está, tento dar continuidade ao seu trabalho para que não haja muita diferença», declara. Quem inicialmente não se convenceu que os utentes seriam recetivos ao projeto foi António Neto. Contudo, hoje o presidente da direção do Centro tem uma opinião diferente: «Foi uma mais-valia para a instituição e para eles. Levam isto tão a sério que se preocupam no cumprimento do horário e na feitura dos trabalhos», constata o dirigente, que aplaude os utentes que, «já com 80 ou 90 anos, conseguem ter boa memória, ouvir, aprender e ser recetivos ao que a professora lhes ensina».

Maria de Fátima abandonou a escola por causa das reguadas

Com 67 anos, Maria de Fátima foi uma das aprendizes que mais cedo terminou os seus afazeres escolares. Depois de aprender a letra “P” e de cantar o “PA, PE, PI, PO, PU” em sintonia com os colegas, socorreu-se de um auxiliar de memória para escrever o seu nome. Incentivada pelas professoras e por Vanda Sá Rodrigues, agarrou no lápis e, letra a letra, escreveu Fátima sem copiar. «Vamos ver se consigo. Queria mesmo aprender a escrever o meu nome», confessa a “aluna”, que abandonou a escola porque a professora lhe batia. «Andei lá dois ou três meses. E não era só a mim, também batia às outras crianças», lembra. Mas não eram só reguadas que levava: «Se disséssemos alguma coisa mal também nos batia na cabeça com uma vara», acrescenta. Dessa altura não guarda as melhores recordações, mas diz com orgulho que aprendeu os algarismos e as letras, «só não sei é juntá-las e não consigo ler», queixa-se Maria de Fátima.

Os sorrisos de orelha a orelha após a lição não deixam margem para dúvidas: todos gostaram do que fizeram. «Já aprendi o meu nome e algumas letras», revela Lídia da Costa, de 73 anos, segundo a qual «a gente não sabia fazer nada e agora já vamos fazendo alguma coisinha». Numa situação diferente está Ana Etelvina, de 88 anos, e a filha, que fazem exercícios mais avançados. «Só tenho a terceira classe. Ainda sei muito, mas alguma coisa já esquecida vou reavivando aqui», sublinha Ana Etelvina, para quem as professoras e a animadora «nos levam com muita paciência». Apesar da evolução registada nas últimas décadas, Portugal continua no topo da tabela dos países europeus com maior taxa de analfabetismo. Tendo em conta dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) baseados no Censos de 2011, estimava-se que houvesse cerca de meio milhão de analfabetos no nosso país. A maioria é idosa e vive em zonas do interior. Mas existem outros 30 mil que estão em idade ativa, ou seja, com idades compreendidas entre os 18 e os 65 anos.

Sara Guterres Projeto de alfabetização terminará em junho, quando Vanda Sá Rodrigues concluirá o estágio

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