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1. Na maioria das autarquias de pequena e média dimensão, o sentido do voto é estratificado da seguinte forma: 50% vem dos parceiros de gamela da rede clientelar, ou seja, gente cujo emprego e benesses várias foram criados e assegurados pelo poder do momento, incluindo as respectivas famílias e parentela alargada; 30% diz respeito aos eleitores que votam por pura tradição, pela mesma razão que se continua a torcer pela equipa de futebol do coração; os 20% restantes fazem outra coisa: confiam o seu voto ao projecto que a sua liberdade e autonomia cívica elegeram como o mais apto, o mais audaz, o mais competente, o mais imaginativo. Vendo bem, são estes 20% de eleitores que renovam, periodicamente, o luxo mais precioso da democracia: a incerteza.

2. Quando se trata de declarações amorosas e afins, o que é importante é ser-se claro/a, mas não simplório/a. Espirituoso/a, mas não galhofeiro/a. Insistente, mas não inconveniente. Usar a imaginação sem confundir e as palavras para revelar o que os olhos não conseguem esconder. Mas o fundamental é perceber que, diante do insucesso, é menos importante ficar a falar sozinho do que não ter chegado a falar para coisa nenhuma. No primeiro caso, o sentimento do dever cumprido tira-nos de apuros. No segundo, nada pode remediar o que se calou.

3. O bobo é essencial na política. Ernst Jünger, em “Eumeswil”, não quis privar o Condor de ter o seu. Na verdade, é o bobo que resgata o monarca, tirano ou não, da demência de um poder sem freio. O bobo só ocasionalmente depende da boa vontade do soberano. Não o segue como uma sombra, mas como uma candeia. O bobo não deseja, mesmo secretamente, a aniquilação do monarca. É mais um terapeuta privado, que, num role play absurdo, lembra que o poder é irrisório se não for divertido. No fundo, o bobo é uma sub espécie do anarca de Jünger. Mantendo uma relação objectiva com o poder, transfigura-o.

4. Raymond Carver é dos poucos escritores de que me orgulho possuir a obra completa publicada em Portugal, brilhando numa estante da biblioteca. A sua mestria está em transformar um quotidiano prosaico em tema literário. Mostrar os seus personagens sem pudor, mas dotados de uma surpreendente humanidade. Que se precipita numa epifania quase imperceptível, que em dado momento, se torna a chave da estória. “De que falamos quando falamos de amor” e “O que sabemos do amor” são duas versões da mesma obra, composta por 17 contos. A primeira, publicada originalmente em 1981, pela Alfred A. Knopf e, em Portugal, em 1987 pela Teorema, é o resultado da reescrita efectuada pelo editor Gordon Lish, que cortou o original em cerca de metade. “O que sabemos do amor” foi publicado em 2009 nos EUA (no ano seguinte, com edição nacional, pela Quetzal) e corresponde à versão integral, sem cortes, do manuscrito original que Carver entregou ao seu editor em 1980. Como se refere no prefácio da edição, «os contos originais foram recuperados transcrevendo as palavras que o autor bateu à máquina, e que estão escondidas debaixo das alterações e cortes que Lish fez à mão». Um trabalho notável.

5. Portanto, há muitas linhas a separar muitas coisas. Coisas a atravessar muitas linhas que parecem outra coisa. Mas não são. Porque essas linhas misturam-se com as coisas. Escondem a sua densidade. Parecem as mesmas. As linhas que envolvem as coisas, e as linhas que as atravessam. Mas não são. Já que as coisas perdem forma, peso, altura. Com as linhas a sobreporem-se às coisas, às muitas coisas que são só uma. E só quando cada uma dessas coisas escapa às linhas que não são linhas e cair no pé, saberemos então quanto valem. As coisas que escapam das linhas.

Por: António Godinho Gil

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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