A Guarda, à semelhança de outras cidades, foi invadida por uma horda de vendedores porta-a-porta de fibra para multimédia. Na sua infinita paciência ou recusam educadamente o assédio ou, se os deixam entrar, correm o risco de se deixarem entalar entre dois contratos de televisão/internet/telefone/telemóvel.
Muitos destes vendedores são putos, sem grande experiência, que levaram uma lavagem cerebral nos agressivos e inspiradores cursos de formação intensiva/ seminários e que vêm munidos de um rol de facilidades e papéis que prometem uma rápida e indolor cessação de contratos de fidelização pré-existentes.
Alguns clientes, na dúvida, telefonam para a atual empresa de telecomunicações e dão, do outro lado, com mais um ou outro imberbe que trabalha a dois euros e meio à hora e que, perante a sua intenção de cessação do contrato, não sabe analisar convenientemente a informação à distância de uns cliques e o deixa livre para assumir um novo compromisso que o cliente acha mais vantajoso; mas pode estar enganado.
A máquina dos “novos miúdos no bairro” está de tal forma bem oleada que, 24 horas depois, uma empresa subcontratada irrompe pelas residências, com equipamento e fios novos em folha, arrancando as instalações da empresa concorrente, instalando o seu e fazendo a migração de números de telefone.
Tudo extremamente eficiente, como convém, para que os entraves que irão começar a surgir aos clientes sejam mais difíceis de reverter.
Parece que os mesmos telefonemas que chegam e sobram para estabelecer contratos de fidelização por um par de anos já não chegam para provar que o cliente foi autorizado pela mesma companhia a resolver os mesmos contratos, os quais, muitas vezes, nem estão escritos nem assinados em nenhum documento oficial; simplesmente foram validados num maldito telefonema onde o enunciar de um número de contribuinte e de uma morada serviram para identificar o titular do contrato. O mais absurdo é que, em ambiente de loja, é sempre exigida a presença do titular do contrato e a sua identificação para que o mesmo possa efetuar transações relativas ao seu contrato!
Alguma coisa não está bem neste processo e os clientes estão a sofrer as consequências de um excesso de facilitismo na altura de estabelecer contratos de fidelização, por um lado, e a enorme dificuldade em abandonarem a mesmíssima empresa quando estão fartos dos maus serviços, da incompetência e da prepotência, pelo outro. Mas a luta é sempre de David e Golias e muitos clientes veem-se a braços com dois contratos de telecomunicações às costas mesmo que tenham, muitas vezes, razão e quando tentam provar que foram enganados por uns e por outros, as malditas gravações dos telefonemas desaparecem misteriosamente deixando-os sem qualquer hipótese de provarem as suas razões, bem como se desvanecem os hábeis e ardilosos vendedores, que lhes entraram em casa e cujos telemóveis e nomes os clientes se esqueceram de pedir.
Segundo a DECO, o ano passado 50% das reclamações disseram respeito a conflitos com empresas de telecomunicações. A maior parte das vezes o totipotente contrato de fidelização “assinado” via telefone é quem mais ordena. Na recusa de pagamento, muitas vezes com justa causa mas apenas provável em tribunal, o que leva os clientes a desistir, resultam as famigeradas e stressantes faturas de incumprimento contratual (FIC), mês após mês, com ameaças de alcavalas como os juros de mora, levando a que os clientes lesados acabem por cumprir com os dois contratos – o velho e o novo.
Muito cuidado, portanto; se o caro leitor for abordado por vendedores não assine nada sem primeiro ter a certeza absoluta de que nada o está a ligar à empresa que pretende deixar. Para tal deverá SEMPRE dirigir-se pessoalmente a um balcão onde fará, em papel, e denúncia do contrato, caso o possa fazer e, assim, livre que nem um passarinho, prestes a ser, de novo, engaiolado, lá poderá fazer um novo contrato com um vigarista diferente.
Por: José Carlos Lopes
| Comentários dos nossos leitores | ||||
|---|---|---|---|---|
| ||||


