Há coisa de vinte anos, mais ano menos ano, andava o major Valentim Loureiro a vociferar freudianamente “GU-TE-RRES” numa feira de Gondomar, marcando assim o ponto de partida simbólico para a nova vida política do engenheiro socialista e católico que, pouco depois, se tornaria primeiro-ministro de Portugal. Após dez anos de sucessivas maiorias de Cavaco, a chegada de Guterres anunciava uma nova forma de fazer política mais sensível ao diálogo e à capacidade de estabelecer pontes entre diferentes interlocutores políticos. Mas exatamente como na parábola da andorinha e da primavera, Guterres também não mudou a política portuguesa, e a prova dramática disto foi a sua demissão em 2002, justificada pelo próprio com o pântano em que a vida política se tinha entretanto tornado. Demitiu-se para espanto de todos e lá foi ele plantar macieiras e preparar novas vidas.
A demissão de primeiro-ministro abriria a porta para uma carreira internacional e, entre 2005 e 2015, Guterres viria assim a desempenhar o cargo de Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Trata-se de um cargo com alta visibilidade internacional, sobretudo em tempos como os que vivemos de aumento exponencial dos movimentos descontrolados de pessoas, mas de facto com pouca margem de ação mesmo na gestão dos campos de refugiados. Apesar de tudo, ao longo dos últimos dez anos Guterres foi incansável na procura de agitar as consciências governamentais e pugnar pelo respeito dos direitos dos refugiados que estão consagrados em inúmeros tratados internacionais. Assim, foi com naturalidade que o governo português apresentou a sua candidatura a Secretário-Geral da ONU. O processo de seleção decorre durante todo este ano e levará à escolha do nome que há de substituir o sul-coreano Ban Ki-moon à frente da organização mundial a partir de janeiro de 2017. Tradicionalmente, esta seleção é feita à porta fechada e negociada entre os membros permanentes do Conselho de Segurança (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido) que dispõem de veto sobre a matéria. Também tem vigorado a regra informal da rotatividade regional, o que deveria colocar à frente da corrida um nome da Europa de Leste.
A grande novidade do processo que agora decorre é a sua maior transparência, com os candidatos a apresentarem-se em audiência aberta e a responderem a todo o tipo de perguntas sobre os problemas da humanidade e de gestão da organização, desde a paz e segurança mundiais à defesa dos direitos humanos e estratégias de desenvolvimento global e adaptação às mudanças climáticas. As audiências aos candidatos decorreram na semana passada e a experiência política de Guterres foi decisiva para a excelente impressão que deixou. O tom apaixonado da sua apresentação e a visão integrada dos diferentes problemas que a organização tem que enfrentar na próxima década valeram-lhe pontos e a preferência de muitos. Mas a chegada de Guterres ao topo da administração mundial está cheia de escolhos que não passam apenas pela regra da rotatividade regional. Com a igualdade de género cada vez mais no topo das prioridades da ONU, muitos entendem que chegou a hora de eleger a primeira mulher para dirigir a organização. A neozelandesa Helen Clark perfila-se como candidata fortíssima, tendo sido 9 anos primeira-ministra do país e, nos últimos sete, administradora do Programa da ONU para o Desenvolvimento, o que fez dela na prática a número 3 da organização.
Os próximos meses serão intensíssimos para Guterres e para a diplomacia portuguesa. Se o processo continuar a abrir e o Conselho de Segurança resolver indicar, contra a prática tradicional, mais de um nome à Assembleia Geral, o português poderá ter hipóteses acrescidas. Até lá, vai ter que continuar a mostrar a todos que é a pessoa certa para o cargo certo, e esperar que as grandes potências não vejam nisso um motivo de preocupação ou reserva.
Por: Marcos Farias Ferreira


