Talvez o resultado mais importante das eleições de 25 de maio passado tenha sido a emergência de uma política distintamente europeia. Depois do que ficou dito e comentado sobre as eleições nas duas últimas semanas, parece difícil falar do tema a partir dos seus aspetos positivos. Pareceria mesmo impossível sustentar que algo de bom saiu destas eleições europeias quando tantos se empenham em antecipar o fim da Europa política e deplorar a falta de políticos à altura das circunstâncias. Durante várias décadas, a política europeia foi o domínio opaco das negociações entre estados sobre política agrícola e comercial, repartição de votos nas várias instituições e a preservação dos privilégios de uma burocracia nascente tão bem captada na série britânica “Yes Minister”. Durante décadas, a política europeia pôde prescindir da cidadania europeia e reafirmou-se mesmo através da sua negação. Os tratados negociados pela tão aclamada geração de políticos europeus (Mitterrand, Kohl ou Delors, por exemplo) para fazer avançar a Europa política não passaram, frequentemente, da imposição do diretório franco-alemão a pequenos estados que prescindiram de voz crítica e quase nunca submeteram esses tratados a escrutínio popular claro.
Durante décadas, a política europeia foi tratada como coutada de elites supostamente omniscientes que, no fundo, desprezavam qualquer forma de legitimação das suas opções europeias. Mesmo a atribuição progressiva de mais poderes ao Parlamento europeu foi sempre tratada com desdém a partir de cima e como pequena concessão incapaz de alterar o modelo político. Aqueles que tanto louvam uma certa geração de políticos europeus pela sua decisão e ação deviam lembrar que aqueles nunca quiseram uma democracia europeia, ou seja, nunca acreditaram possível levar a democracia ao patamar europeu pela criação de um espaço de debate e decisão alargada, pela cultura de uma cidadania europeia. Até 1989, a oposição ao sovietismo serviu de pretexto para essa barricada política e, mesmo depois dessa data, a urgência dos projetos de alargamento e aprofundamento da nova União sempre procuraram afastar o maior controlo cidadão sobre o rumo da integração europeia. A desculpa das elites foi sempre a de que os temas (união monetária, por exemplo) eram demasiado técnicos para o comum dos cidadãos e que, de qualquer forma, os governos eleitos tinham-no sido com base nessa plataforma programática.
A política europeia foi apresentada às sociedades que saíram da guerra como o reino da inevitabilidade e da segurança face ao sempre possível retorno da guerra mas o anquilosamento do discurso acabou por provocar o efeito contrário. Hoje muitos não contestam uma qualquer forma de Europa política mas rejeitam o estado a que esta Europa chegou. O (aparente) paradoxo, em meu ver, está em que é precisamente a oposição a esta Europa o que está a motivar a abertura do debate político na Europa e a ativação de uma cidadania europeia. O completo falhanço de uma resposta coordenada das instituições da UE à crise financeira desde 2007 desencadeou diferentes movimentos um pouco por toda a Europa que, se por um lado representam perigos reais para a própria ideia de Europa, por outro são positivos porque deviam obrigar as elites dirigentes a uma profunda reflexão. Se até há pouco o euroceticismo era uma tendência relativamente marginal e limitada a um punhado de países (como o Reino Unido ou os nórdicos) para quem a saída da UE sempre pareceu viável, hoje essa é uma tendência que alastra no espectro político e em países para quem a fragmentação europeia traria, em primeiro lugar, o recuo da democracia doméstica.
Se é um desastre o crescimento do apoio a movimentos xenófobos e racistas por toda a Europa, o alargamento do debate a nível europeu, e o que esse fenómeno significa para o futuro da Europa, é por si só um sinal de esperança de que a democracia europeia está finalmente a despontar. O Parlamento europeu é a casa dessa democracia e todos faríamos bem em seguir o que se lá passa nos próximos cinco anos, pois o que lá se vier a decidir terá impacto significativo na vida de todos.


