As eleições deste ano pareciam a última oportunidade de regressar ao caminho do progresso, mas entre este e o país, pelos vistos, encontram-se os aparelhos partidários. É por isso que, em lugar do referendo sobre a Constituição Europeia vamos ter, muito provavelmente, o do aborto; por isso também que as listas para as autarquias locais vão insistir nos erros de décadas e nos caciques do costume; por isso finalmente que as listas para o parlamento, descontados os veteranos do costume, paraquedistas ou não, constituem uma autêntica bofetada na cara de dez milhões de portugueses.
O próximo parlamento vai ter tarefas ciclópicas e uma responsabilidade do tamanho dos problemas do país. Vai ter de produzir de imediato um orçamento rectificativo, corrigir erros gravíssimos do anterior governo, lançar reformas em áreas sensíveis como as da segurança social, da saúde, da justiça – cujo mau funcionamento é responsável por prejuízos de empresas e particulares correspondentes a dez por cento do PIB. Vai ser obrigado a pronunciar-se sobre as SCUT e decidir se vai cumprir as promessas de José Sócrates ou as ameaças de Santana Lopes. Vai ter de legislar em praticamente todas as matérias sensíveis e vai ter de o fazer sem dinheiro e sem margem de manobra para o obter. E com todos os indicadores económicos no vermelho e a ameaçarem explodir.
Precisávamos para essas tarefas da nata da nossa sociedade e, em vez disso, os partidos apresentam-nos os parolos da paróquia. Criaturas cinzentas, anónimas e potencialmente limianas. Que ameaçam, em caso de eleição, ir para o parlamento “representar condignamente o seu distrito” e berrar pelos fontanários que vão prometer na campanha. Ou que acreditam que as eleições servem, antes de mais nada, para colocar no parlamento, onde vão dormir umas boas sonecas, as suas bonitas, incompetentes e rechonchudas excelências. É como se a Inglaterra, em plena segunda guerra mundial, tivesse o Santana Lopes em lugar de Churchill.
Proponho um pequeno exercício. Vamos esquecer por umas semanas a política (no sentido moderno, que não no clássico), os artifícios de linguagem e os ataques pessoais que costumam surgir em campanha e vamos concentrar-nos nas propostas dos partidos e dos candidatos a deputados para os verdadeiros problemas que nos afligem: os défices do orçamento geral do estado e da balança de transacções, a produtividade, o fim dos têxteis, a dependência energética, a poluição, o envelhecimento da população, o colapso dos tribunais, a falência da segurança social, a destruição das nossas costas, da nossa floresta, da nossa agricultura, da nossa paisagem urbana – e fico-me por aqui que já estou suficientemente deprimido.
Por: António Ferreira


