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Frimário

1. Na sessão inaugural da Web Summit, Paddy, o incrível irlandês com sapatilhas caras, usou a palavra “incrível” como adjectivo universal. No final, incentivou o público a cumprimentar a vizinhança. Dando ele próprio o exemplo, ao saudar Costa & Medina, os quais, ufanos, pareciam bonecos do Contra Informação. Tudo isto num registo algures entre o pastor da IURD e o comediante de stand up. Entretanto, serviços informatizados, como o registo dos óbitos, deixaram de funcionar. O SIRESP é o que se sabe… Cada época tem os seus animadores de salão ou de tribuna. Há 150 anos, os positivistas e arautos da ciência anunciavam um mundo novo, nas sociedades científicas e académicas. Há cem, os oligarcas industriais da produção em série preparavam-se para fazer triunfar a modernidade e liquidar as sociedades tradicionais. Hoje, quem dá cartas são os tecno-gurus e “empreendedores”, reunidos em concílios selectos. Por sinal, muito concorridos pelos sobas locais, ansiosos pela bênção da “inovação” tecnológica. Os oficiantes, em casual wear, lá vão anunciando, como podem, a boa nova e os amanhãs que cantam. Os jornalistas têm orgasmos múltiplos. O povo fica prostrado. Pela parte que me toca, nunca gostei de ir à feira popular e, em matéria de humor, prefiro, de longe, a stand up comedy. A vida está difícil para comediantes, neste país de opereta.

2. Por vezes, dou passeios demorados por certas zonas novas da Guarda. Reparo sobretudo na arquitectura. Quando ela existe, é claro. Na maioria dos casos, impera o caos, o amontoado de paredes, a linearidade do máximo aproveitamento do espaço, a pura fealdade. Espaços que não respiram. Abrigam e protegem. Nada mais. Por vezes, aparecem mansões opulentas, projectadas a uma escala faraónica. Pretendem mostrar “estilo”, mas só conseguem exibir vaidade. Com bastante esforço, dá-se conta de alguma sofisticação. Mas um olhar mais atento só conduz à triste realidade: tudo não passa de afirmação social. Onde a aparente discrição mais não é do que exibicionismo envergonhado. E pergunto a mim próprio. Quem são estas pessoas? O que fizeram para aqui chegar? Serão felizes? O que lêem? Qual o futuro de uma cidade empobrecida e com tantos “ricos”?

3. Para um francês médio, não existe um sentimento como a anglofobia, por muito que a tradição o queira inculcar. O que há é uma vizinhança ríspida, uma saudável rivalidade, cimentadas por um convívio milenar. Onde a sede mútua de conquista e a competição colonial deram lugar à aliança militar e, circunstancialmente, política. Nessa longa história, não faltam o humor e o simbolismo. Basta referir, como já o fez Shakespeare em “Henrique V”, que os franceses, durante muito tempo, se referiam à menstruação como “vêm aí os ingleses”, por ser o vermelho a cor característica dos seus uniformes. Mas sendo a anglofobia um exagero, não significa que, tradicionalmente, a anglofilia fosse bem vista. Pelo contrário, era motivo de chacota. Conta-se que, quando Luís XIV enviou Henriqueta, sua cunhada inglesa ao outro lado da Mancha, para negociar com o monarca inglês, Carlos II, seu irmão, uma aliança militar contra os holandeses, perdurou a indecisão em Versalhes sobre quem seria o emissário. No início, o nome indicado era de um aristocrata admirador das virtudes britânicas. Mas quando segredaram ao Rei Sol que o tal duque “até gostava da comida deles”, o brio nacional falou mais alto. E ficou desde logo assente, ou seja, decidiu o monarca que, quem iria em missão de charme, seria a cunhada. Sendo inglesa, bem podia gostar da “comida deles” à vontade!

4. É exactamente no momento em que tens que dar tudo em campo, largar a corda, saltar sem saber se consegues chegar ao outro lado da vala, que olhas em volta e não reconheces ninguém. Ou porque o teu movimento é tão importante que ninguém o quis ou soube acompanhar. Ou porque quem o fez não era quem tu esperavas. É fundamental chegar ao grau de cepticismo que permite ironizar acerca do que nos aflige, mas com suficiente cautela para perceber onde acaba a piada. Agarrar a punch line, ou, em vernáculo, a deixa de um número humorístico, não é fácil. O cepticismo só existe para preservar uma fé inabalável em algo. E para desfazer um nó, alguém tem que o construir.

5. Conta-se que Lenine, em 1915, durante a sua curta estadia em Londres, em romagem à casa onde viveu Marx, se deteve por algum tempo na margem sul do Tamisa, diante de Westminster. E terá comentado com Trotsky – jovem promessa do bolchevismo, que o acompanhava – com irreprimível desprezo: «Olha, este é o Parlamento deles!» Setenta anos depois, a tirania absurda que criou ruiu como um castelo de cartas. E hoje, as instituições com 800 anos, saídas da Magna Carta, continuam de pé como se nada fosse. Não há nada tão cruel como a História.

6. A pobreza é a maior escola a que podemos aspirar. Não por conferir qualquer tipo de nobreza, e muito menos de resguardo moral. Nada disso. A pobreza é avassaladora. Corta a ambição mal ela nasce. Obriga a que os outros revelem a sua natureza. Sobretudo quando passam a ignorar-nos. É uma planta invasora que não deixa espaço para mais nada. Uma doença invisível, mas à vista de todos. Que tanto põe de fora a mais crua sordidez, como pode refinar uma grandeza sem mácula.

Por: António Godinho Gil

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