José Igreja não vai regressar à vereação da Câmara da Guarda. Nesta entrevista a O INTERIOR, o candidato socialista derrotado por Álvaro Amaro em 2013 quebra o silêncio e diz que não tem vocação «para ser oposição», mas nem por isso deixa de criticar o atual presidente do município, que «pode vir a ser um “bluff”». Na sua opinião, nas últimas autárquicas, os eleitores quiseram mudar porque «lhes foi prometido empreendedorismo, postos de trabalho e desenvolvimento, mas até agora nada». José Igreja considera mesmo que este mandato tem sido marcado apenas por «festinhas, festas, festins e festarolas».
P – Pediu a suspensão do mandato de vereador em abril de 2015. Passado quase um ano, vai voltar à Câmara da Guarda?
R – Em primeiro lugar, quero agradecer a O INTERIOR porque ninguém falou comigo desde 2014, quando não tive a sorte nem a capacidade de vencer as autárquicas. Interrompi o mandato por algum tempo para pensar e para verificar se haveria ou não condições para continuar. Neste momento, a um mês da decisão final, a minha posição é que não devo regressar porque nunca tive vocação para oposição. Tive sempre vocação para poder, para fazer e poder executar as minhas teorias e ideias sobre o que penso que a Guarda precisa. Assim, o ideal será passar a pasta da oposição, que é difícil e complicada, aos meus colegas vereadores e deixar o caminho para futuros candidatos do PS à Câmara. Eu não serei candidato em 2017 porque esta experiência não correu bem.
P – São razões de ordem pessoal, portanto…
R – Quem se candidata e não ganha tem que assumir as suas responsabilidades. Houve muita coisa que correu mal, haverá culpa minha mas também, seguramente, na rutura do PS, nas traições que aconteceram e na envolvente estranha que se verificou na Guarda. Tenho que compreender que uma pessoa que está na Guarda há 37 anos como advogado, que nasceu na Castanheira há 61 anos, que fez sempre a sua vida nesta cidade e que não é compreendida nem aceite não pode voltar a candidatar-se. Podem dizer que metade do PS uniu-se ao PSD para derrotar a candidatura socialista à Câmara, que o mandato anterior do PS na Câmara não correu bem ou que a Guarda estava farta do PS na autarquia, que governava há 37 anos, tudo isso é possível mas não retira a minha própria responsabilidade.
P – É uma despedida de José Igreja da vida política e pública ao fim de 30 anos de intervenção na cidade?
R – Não, a Guarda é a parte mais importante desta minha vida. Estou cá desde 1978, sem um único dia de interrupção na advocacia, e não saio da vida política da cidade. Estou atento, vou ouvindo e lendo. Só acho que não tenho o direito de voltar a ser candidato à Câmara, mas estou disponível para apoiar o PS.
P – Não é, portanto, uma despedida?
R – Não. Há muitos anos fui convidado para a ULS e para a Segurança Social e não aceitei. Fui indicado para candidato a deputado e não quis. Toda a minha vida política mantém-se de pé.
P – Foi traição ou foram opções que as pessoas tomaram?
R – Foram traições e opções. As opções não têm nada que ser criticadas, já as traições não podem ser esquecidas, sobretudo quando vieram de antigos camaradas. Se algum dia os vir com alguma dificuldade seguramente que os levantarei sem problema nenhum… Tenho uma memória péssima e uma capacidade de perdão gigantesca.
P – Quem o atraiçoou?
R – Já é tarde para falar em nomes, não vale a pena. Os mentores da situação que patrocinou a vitória de Álvaro Amaro nas últimas autárquicas são três pessoas – e não mais.
P – Os críticos dizem que o PS apresentou uma lista fraca, não teve programa de candidatura nem ideias mobilizadoras. A derrota passou por aí?
R – Não. A minha equipa era boa, eu é que falhei. O nosso programa foi trabalhado a todos os níveis, tinha ideias, algumas das quais foram sugeridas à maioria no primeiro plano e orçamento, caso do campo do Zambito. O que houve foi um rutura política do PS e falta de capacidade de mobilização. Culpa minha, pois não consegui unir os socialistas ou então pensava que estavam mobilizados em torno da minha candidatura quando estavam a trabalhar para o outro lado. Há quem diga que tudo isto foi um truque do PSD para partir o PS e vencer a Câmara. Nos últimos dias da campanha houve uma união entre os “independentes” e o PSD nas freguesias e isso resultou porque a sondagem da semana anterior dava um empate técnico e no dia das eleições o PSD/CDS ganhou com quase dois terços dos votos. Houve uma espécie de “vendetta”, uma vingança dos ditos “independentes”, que de independentes tinham tanto quanto eu.
P – Qual é a quota-parte de Vergílio Bento na sua derrota?
R – A culpa foi toda minha. Não vou culpar ninguém, já está tudo perdoado e esquecido. Mas é evidente que há pessoas que têm de assumir os seus atos – e fazem-no cada vez que falam na rádio. Sabem que eles e outros são a origem do problema. Quando António José Seguro perdeu a liderança do PS para António Costa não criou um novo partido, ficou em casa sossegado a curtir a mágoa, como se costuma dizer. Algum dia eu, se tivesse perdido por três votos, teria feito alguma coisa contra o PS? Não. Neste aspeto, Vergílio Bento não foi um socialista.
P – Como avalia estes dois anos e meio de mandato de Álvaro Amaro?
R – Em primeiro lugar quero destacar as partes positivas. Havia a ideia de que a Câmara da Guarda tinha uma dívida incomensurável, impossível de gerir, incapaz de fazer o que fosse, e eu disse na campanha que bastava reorganizá-la. Toda a gente se riu de mim, mas o facto é que Álvaro Amaro fez isso com o acordo dos vereadores do PS e poupou alguns milhões de euros. Outro ponto positivo foi o ar de festa da Guarda, é que o atual presidente da Câmara andou em festa durante dois anos e continua. Depois, inaugurou as obras caríssimas do executivo anterior. Não sei se as pessoas têm a noção dos milhões investidos no mandato de Joaquim Valente, é a parte complexa que chateia e que só prejudicou o PS. Falo da lama, do saneamento, das águas na Rua António Sérgio, Rua Cidade Safed e no bairro de Nossa Sra. dos Remédios. Foi Joaquim Valente que as fez mas foi Álvaro Amaro que as inaugurou, tal como a rotunda da Ti’Jaquina. De resto, fez o campo de futebol do Zambito, a estrada do Barracão e a rotunda da Luz, tirando isso não sei se fez mais alguma coisa…
P – E a parte negativa?
R – É não ter cumprido a promessa de criação de emprego. Sei que a Câmara não pode prometer emprego, mas pode e deve promover situações de atração de investimento através das ligações de Álvaro Amaro ao antigo governo, ao AICEP e dos conhecimentos que dizia ter em Lisboa, Porto e Coimbra. E não se tem visto nada, quando era aquilo que a Guarda esperava. Tem outro problema, é que o funcionamento da Câmara não melhorou, está na mesma. Não é mais rápida a aprovação de projetos nem a resposta aos munícipes, não é mais eficiente a ligação aos empresários, está tudo como dantes. Não culpo os técnicos, são os procedimentos da autarquia que se mantêm inalterados. Há também as “nódoas negras”, como o Hotel Turismo. Era a grande promessa, “comigo o hotel vai reabrir”, dizia Álvaro Amaro. E passados dois anos e meio lá está na mesma, nem hotel, nem escola. Podia ter feito alguma pressão com o Governo PSD/CDS para o cumprimento do contrato celebrado anteriormente, mas foram dois anos e meio perdidos. O mesmo se passou com o quartel da GNR, um “armazém” sem condições. Andamos a engonhar anos e anos quando o presidente eleito tinha esse poder. É sinal que o poder político da Guarda continua fraco. Era importante que a GNR tivesse um espaço fantástico junto ao parque industrial, onde há um terreno guardado para o efeito, para permitir criar uma praça fabulosa com ligação ao TMG no centro da cidade. A pousada da Juventude também continua fechada e o TMG perdeu força e impacto, enquanto no estacionamento não houve nenhuma solução, a não ser o corte de árvores junto ao Jardim José de Lemos. Mas a parte mais interessante é ver como se gasta dinheiro na Câmara porque tudo é feito por contratações externas. Não sei se é por vocação, por vício, por vontade própria ou por política de gestão, como tem dito Álvaro Amaro, mas tudo tem sido feito por privados, a quem se pagam milhões e milhões de euros. Concordo com algumas dessas contratações externas porque a Câmara não tem capacidade para as fazer, mas muitas outras são completamente desnecessárias. Noto igualmente que tem havido falta de apoio às freguesias, um desleixo completo. Finalmente, a “cereja em cima do bolo”, Álvaro Amaro resolveu cortar árvores às toneladas. Foi uma coisa de repente, mas desconfio que tenha sido uma cunha dos donos dos prédios porque as árvores estavam a ensombrar os apartamentos. Ninguém o diz, mas temos que ser francos: quis agradar, ele ou a Câmara, a essas pessoas. Não era assim que se fazia, a intervenção devia ter sido precedida de um estudo equilibrado e sério. Alguém pediu para cortarem aquelas árvores, não foi um argumento estético, de salubridade ou de segurança. Foi uma cunha pura e simples. Nunca pensei que Álvaro Amaro fosse capaz de uma razia destas…
P – E como vê a atuação da oposição socialista, tanto na vereação como na concelhia?
R – A minha equipa era realmente fantástica e isso está provado na capacidade de intervenção de Joaquim Carreira e de Graça Cabral no executivo. A oposição tem sempre uma dificuldade muito grande em impor-se e só consegue quando dá um grito mais forte ou protesta de forma mais virulenta.
P – Mas acha que o PS aprendeu alguma coisa com a derrota nas últimas autárquicas e dois anos e meio na oposição?
R – Não. Continuam a andar em “guerrinhas”. Espero que a “guerra” nas eleições para a Federação acabe rapidamente e a partir daí têm que se unir. A derrota do PS na Câmara da Guarda ainda não está bem digerida – para mim está, pois já assumi as minhas responsabilidades e já disse que não volto a ser candidato. Até tenho estado um bocado afastado porque tenho medo que o meu apoio a alguém possa ser negativo.
P – Como reage quando, nas Assembleias Municipais, Álvaro Amaro responde à bancada do PS dizendo que vocês estiveram cá muitos anos e não fizeram…?
R – Tem todo o direito de mandar essas bocas, mas esquece-se que herdou uma Câmara que fez muitas coisas, como o TMG, a biblioteca, a plataforma logística e resolveu o saneamento. O que faltava na Guarda era a dinâmica empresarial e o emprego que Álvaro Amaro disse que criava, tal como abria o hotel. Isso levou as pessoas a confiarem nele. Mas nada disto aconteceu. Se tivesse conseguido reabrir o Hotel Turismo e a pousada da Juventude, se tivesse lançado a obra do quartel da GNR… eu até votava nele! Pior, tenho a noção de que haverá hoje menos emprego na Guarda do que havia no dia em que ele tomou posse. Isso era uma das convicções dos eleitores que quiseram mudar porque lhes foi prometido empreendedorismo, postos de trabalho e desenvolvimento, mas até agora nada.
P – Acha então que Álvaro Amaro está a defraudar os guardenses?
R – Ele pode vir a ser um “bluff”. Só não o é neste momento porque as festas têm corrido bem. Foi assim no 10 de Junho, uma festa que, reconheço, enalteceu e motivou a Guarda, a FIT vai andando embora não traga nenhum retorno especial para a cidade. São festinhas, festas, festins e festarolas…
P – Qual a sua opinião sobre as atuações mais recentes da maioria de Álvaro Amaro, nomeadamente os gastos de 92 mil euros numa escultura na rotunda do Rio Diz?
R – Álvaro Amaro gosta muito de por “cerejas em cima dos bolos” feitos pelo PS. Foi assim na rotunda da Ti’Jaquina, onde inaugurou o que já estava feito, e na rotunda da Avenida de São Miguel, onde colocou o “Anjo da Guarda”. Sou um adepto da cultura e tenho muita dificuldade em dizer mal de pintura ou escultura boa. A Guarda precisa ser ainda mais bonita e atraente, mas há que ter algum cuidado pois quem vai pagar será o IMI dos guardenses, que subiu de forma substancial. Acho que Álvaro Amaro já anda a gastar o IMI do próximo ano, é mais uma dívida que embeleza a cidade através. Conheço a obra da Dora Tracana e a sua escolha agrada-me, o resto é mais uma festa, é mais uma “cereja em cima do bolo” que o PS deixou.
P – O que gostaria de ver acontecer na Guarda nos próximos anos?
R – A Câmara não aproveitou a nossa ideia de candidatar o centro histórico a Património da Humanidade. Ofereci o projeto e as ideias ao município, seria algo de muito importante para a cidade. É um projeto que pode demorar 5 a 10 anos a ser construído, mas a Câmara deve agarrar nele e iniciá-lo. Álvaro Amaro pode ficar na história se lançar esta candidatura. Uma segunda ideia que defendo é a necessidade de um gabinete na Câmara para captar investimento para a Guarda, nomeadamente através de uma aliança com a AICEP – não tenho visto ninguém do PS ou do PSD a fazer isso. Eu pensava que Álvaro Amaro, com a ligação que tinha ao primeiro-ministro e aos ministros, conseguisse alguma coisa nessa área, alguma influência, mas nada. Neste momento tem sido muito mais dinâmico o presidente da Câmara de Pinhel. Já criou mais emprego Rui Ventura em Pinhel do que Álvaro Amaro na Guarda, e isto é incompreensível. Onde está o poder político que um e outro têm? Também não é a mesma coisa investir em Pinhel ou na Guarda, mas como é que Pinhel consegue atrair empresas e a Guarda não? Desleixo, falta de capacidade, Álvaro Amaro já se fartou disto e quer ir-se embora? Há claramente falta de dinâmica empresarial por parte desta Câmara.
P – Na sua opinião, quem será o melhor candidato do PS em 2017 contra Álvaro Amaro?
R – Está enganado, Álvaro Amaro não fica cá – é um político que vai vendo para onde pode ir. Viu Gouveia, depois a Guarda e agora vê Coimbra, por isso não tenham dúvidas que está “en passant” porque já deu uma prenda ao PSD-CDS na Guarda e vai ver se faz o mesmo em Coimbra. No PS, o arquiteto Carreira é uma pessoa que tem capacidade para isso e dará um excelente presidente, mas há seguramente mais gente capaz de poder ser candidato.
P – O PS tem hipóteses de regressar à Câmara da Guarda após a pesada derrota de 2013?
R – Tem se conseguir recuperar na ordem dos 2.000 a 2.500 votos que perdeu. A parte que mais me dói é que os guardenses não votaram a favor de Álvaro Amaro mas contra o PS. Claro que houve mérito de quem ganhou, só que foi uma vitória contra o PS, todos se uniram contra o PS. Nalgumas mesas de voto da cidade deu-se claramente conta que a votação era uma vingança contra o poder político do momento por causa das obras e dos seus contratempos. Há-de ver onde votaram os residentes da Rua António Sérgio, que andou dois anos numa desgraça absoluta. Foi a maior pancada que o PS levou na Guarda, no entanto, é a zona onde houve o maior investimento na rede de águas e saneamento. Acredito que o PS pode recuperar a Câmara se o fizer com unidade. Caso contrário, se voltar a haver mais uma guerra interna, a autarquia continuará a ser dos sociais-democratas seja qual for o candidato.
Luís Baptista-Martins/Luís Martins


