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Germinal

1. Depois de cortar cerca de quarenta árvores na Av. Cidade de Salamanca, a Câmara da Guarda promoveu uma acção de “sensibilização”, no Dia da Árvore, com a ajuda das escolas locais. Fora deste contexto, a ideia até seria boa. Há muitos jovens que julgam o fiambre nascer nas árvores. E fica sempre bem desfazer tais equívocos. Quando tinha 12 anos, as reuniões secretas da miudagem da rua eram feitas no topo de um cedro magnífico, no quintal das traseiras, para onde subíamos por meio de uma corda. Não foi por acaso que a escolha para tais conciliábulos recaiu num local mágico, secreto, que põe em contacto vários mundos: uma árvore. Uma sentinela do tempo. Aposto que alguns dos que me lêem tiveram uma experiência semelhante na sua juventude. Mas sucede que esta celebração tem um óbvio significado político que lhe retira a mais remota hipótese de inocência. A Câmara da Guarda optou decididamente pelo circo. Mas desenganem-se os que simplesmente se indignam com esta manobra de charme. Isto é política pura e dura. Quando o poder tem a percepção de que um erro está a ter um custo político elevado, o que faz? Arrefece o jogo, esvazia o descontentamento, anestesia a intervenção cívica, dissolve a memória, convida à genuflexão conciliatória. E depois, é servir à vontade do freguês. Neste caso, um piquenicão do Continente à escala local, com muitas imagens de criancinhas colocando rebentos na terra e hordas de “populares” extasiados com o “milagre” da multiplicação dos cedros. Quem não ficará rendido diante desta acção “comunitária”? Quem se irá lembrar do que ali aconteceu há 15 dias? Só mentes perversas e insensíveis, é claro…

2. Faz hoje pouco mais de um ano que a Europa “purguessista” anunciava um tempo novo e radioso. Nessa plêiade de “alcoólicos” unânimes, estava a D. Catarina, seu séquito de esganiçadas, a Dra Ana Gomes, o neo fabiano Corbyn, o Pablito da amamentação nas Cortes, o pessoal ligado às indústrias do protesto, aquelas pessoas que colocam frequência da “escola da vida” nos dados pessoais das redes sociais, o esganiçado Barroso, Alfredo, Dr,, o emérito Dr Costa, comentador do programa “Quadratura do Círculo”, entre outros atributos, and last but not least, a minha prima Felismina. Entretanto, um ano depois, a “sórdida” realidade impôs-se aos ademanes oníricos: (ainda) mais austeridade, mais cortes, mais impostos, mais ajustamento orçamental, mais Troika. E como seria de esperar, ao júbilo de um ano atrás, sucedeu o silêncio embaraçado de agora. Pobres gregos e pobres de nós, nas mãos dos demagogos.

3. Embora não pareça, sempre achei que as mulheres têm uma superioridade civilizacional em relação aos homens. Refiro-me a qualidades naturais, e que, depois, no terreno se expandem. Uma delas é a maior capacidade de adaptação às circunstâncias. E num mundo onde a realidade está em contínua e acelerada mudança, isso é um trunfo decisivo. Mas há um outro atributo, a que já ouvi chamar muitos nomes, mas que, para uma mais fácil identificação, chamarei inteligência emocional. E que, para fugir a lugares comuns, tentarei exemplificar de modo empírico. Recentemente, converti-me ao Quiz online. Trata-se de uma série de aplicações para smartphones, que permitem testar os conhecimentos nas matérias mais díspares, em diversos rounds com adversários aleatórios ou seguidores. A partir daí, há uma progressão, com rankings nacionais e internacionais. Ora, depois de umas boas horas nisto, detectei um padrão no comportamento de adversários, consoante o seu sexo. No final de cada round é possível pedir uma desforra, que o adversário pode ou não aceitar. Sucede que, por esmagadora maioria, são as mulheres que, perdendo ou ganhando, solicitam a desforra, ou a aceitam. Os homens, sobretudo quando perdem, saem imediatamente, não disfarçando uma má relação com a “derrota”. Ou seja, para as mulheres nunca há confusão entre o lúdico e o real. Um jogo é só uma forma divertida de comunicar, de dançar, de iludir a gravidade. Um pretexto para a realização do desejo de continuidade, fundamental no erotismo feminino. E neste jogo, a derrota ou a vitória não se medem pelo músculo do conhecimento, mas pela versatilidade do tacto. Uma verdadeira lição.

4. Cinco minutos de convívio com adolescentes são suficientes para medir a frequência de duas palavras-chave: “tipo” e “puto”. A razão é de uma dessas expressões por cada cinco termos do restante léxico. Notável! Quase tanto como a generosa utilização do pronome pessoal “eu” por algumas pessoas nas redes sociais.

Por: António Godinho Gil

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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