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Povoar o interior com elefantes brancos

As festividades religiosas ainda vão sendo uma oportunidade dos cada vez mais migrantes voltarem ao interior. É o regresso às origens. E uma oportunidade para, fazendo prova de vida, confirmar in loco a morte lenta de toda uma região.

Chegar ao centro da vila de Trancoso e ver o Palácio Ducal em lento mas efetivo processo de degradação é chaga a que me havia habituado. Socorrendo-me da ajustada classificação do presidente da autarquia local, Amílcar Salvador, este é um «edifício ex-líbris de Trancoso», que foi ao longo de longos anos objeto de piruetas estratégicas várias. De hotel a turismo de charme, passando por museu de índole diversa, muitas ideias brotaram. Sempre com igual resultado.

Em 2014 este “ex-líbris” foi readquirido pela autarquia que se propôs emendar um dos falhanços políticos, e de seriedade, cometidos pelo anterior executivo. Enquanto crítico da venda do edifício, fui-o também relativamente à recompra, considerando que a gestão do património não se compadece com a lógica de um ioiô. Até porque só se deve investir num imóvel quando há uma estratégica clara e definida para o mesmo. Temia que esta não existisse.

Mas em dezembro último, Amílcar Salvador descansou os trancosences e deixou pistas sobre o futuro do histórico imóvel. Anunciou que seria apresentada uma candidatura a fundos comunitários para a sua obra de recuperação. Mas havia mais. Esta obra «vai ser vital para Trancoso, para a cidade, para o comércio, e vai dar uma vida enorme, uma dinâmica muito maior a Trancoso», afiançava o autarca salvador do Palácio.

Não percebendo o alcance destas palavras, e sabendo da importância dada às modas, imaginei tratar-se de uma incubadora de “start-ups”. Trancoso a competir com Berlim, Lisboa ou, com inaudito comedimento, talvez com Viseu. O autarca adensou depois as minhas dúvidas, afirmando ter «uma ideia muito clara para aquele espaço». Salvador pensava, afinal, fazer do imóvel «um espaço de arte e negócios». Uma espécie de Lx Factory, pensei, ou um novo shopping, algo já tentado com o mamarracho erigido defronte da principal entrada da vila. Um “elefante branco” de gosto e utilidade obscuros.

Mas afinal a reabilitação do Palácio terá outro proveito. Constatado o também avançado estado de degradação do atual edifício da Câmara Municipal de Trancoso, incessantes vezes mostrado por Amílcar Salvador aos visitantes institucionais que por ali passaram – à maneira coloquial de “veja-se lá o estado em que isto me foi deixado” ou com o mais prosaico lamento “ai as minhas couves todas estragadas com a geada” – a autarquia parece agora querer instalar a Câmara e respetivos serviços no “ex-líbris” Palácio Ducal.

Em vez de se investir pouco em pequenas obras de atualização do edifício camarário, investe-se muito numa nova sede camarária. Resolve-se o problema do Palácio devoluto, deixando-se outro a cair. Afinal não é «arte» nem «negócios». É o estado da arte de quem prometeu uma inédita e arrojada «aposta na agropecuária» e, no final de contas, quer é ter o seu “elefante branco”.

Por: David Santiago

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