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Os garnisés, os galos capões, as pitas, os frangos e as fábulas de La Fontaine

Agora Digo Eu

O ditado popular é deveras interessante e requer sempre análise e reflexão.

Quando afirmamos que a galinha do vizinho é sempre melhor que a nossa ou que a galinha do vizinho é mais gorda que a nossa ou ainda que a galinha do vizinho põe mais ovos que a nossa, das duas uma: ou estamos a subalternizar-nos ou na comparação estabelecemos parâmetros que determinam algum grau de inveja misturado com um certo amargo de boca.

Pensava eu que a mentalidade dos galinheiros tendia a desaparecer. É que o milho (algum transgénico) já há muito que é dado a franguitos, frangos, galinhas, galos, galos capões e garnisés, engordados, todos eles, de forma bem estranha e esquisita. A ração produzida, tanto cá como lá, leva os mesmos ingredientes, razão pela qual deixam de existir razões que a ração desconhece, tentando, em última análise, a explicação do comportamento da pita poedeira, do vizinho, cantar menos e fazer mais, ter mais força e determinação e, quiçá, um apetite deveras gordalhudo e voraz, o que a torna cada vez mais gorda, apetitosa e rentável na produção.

Assim, olhamos para o galinheiro vizinho e vemos que a produção aumenta. O galinheiro vizinho tem mais 100 novos postos de trabalho e até final do próximo ano poderá adicionar outros tantos. Que nas festas e romarias são contratados, apenas e tão só, empresas e grupos, com exceção daquilo que não existe na quinta onde se situa o tal galinheiro.

Em sentido inverso, na quinta do lado, os galos capões bicam nas árvores com o intuito de afiarem o bico. Corrigem os erros, quase sempre com outros erros, plantando árvores onde é suposto os veículos circularem, invadindo praticamente as faixas de rodagem. Ao que parece vivem felizes, fazem festas e romarias produzidas e encomendadas a rendeiros que não são de cá. Em suma, nesta quinta o trabalho desenvolvido resume-se à remodelação de alguns equipamentos do galinheiro e mais duas rotundas alindadas e ainda a outra, a que dá luz, completamente escorada, não vá o diabo tecê-las. Citando mais um velhinho ditado popular “muita parra e pouca uva”.

Esopo, o pai das fábulas, deixou-nos ensinamentos e frases que nos fazem pensar.

Séculos mais tarde, Jean de La Fontaine reescreveu os tais pequenos textos de encantar, carregados de simbolismo, onde a ética e moral estão presentes, com destaque para “O corvo que queria imitar a águia”, “O lobo sabichão” e isto sem esquecer a fábula das fábulas: “A formiga e a cigarra”. Uma a trabalhar enquanto a outra canta, canta, palra, palra, dando música permanente aos nossos ouvidos. Joseph de Maistre tinha inteira razão quando afirmou: «Cada povo tem o governo que merece».

Nesta pequena historieta de frangos, galos, galos capões, galinhas, garnisés, galinheiros, quintas e quintarolas, é sempre bom recordar Pompeia Sula, a celebre mulher de Júlio César, a tal que, como todos nós bem sabemos, não bastava ser. Precisava mesmo de parecer…

Por: Albino Bárbara

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