Opinião de Romeu Curto: Belmonte, ou o que se faz quando alguém pensa

Escrito por ointerior

Nos últimos anos fui a Belmonte duas vezes. Devia envergonhar‑me, Belmonte está aqui ao lado, e durante anos foi mais fácil entrar num museu em Lisboa do que num museu da minha região, mas a verdade é que da segunda vez voltei convencido de que ainda me falta uma terceira. E uma quarta, provavelmente.

Há sítios em Portugal onde se percebe, sem ninguém ter de explicar, que alguém pensou. Belmonte é um deles. Não é uma cidade grande, e isso facilita a observação: a praça vê‑se de uma ponta à outra, o castelo está onde tem de estar, a calçada não tenta enganar ninguém, e as placas que indicam museus são tantas que, à terceira esquina, começamos a desconfiar de que não cabem todos na mesma visita. Não cabem. É bom que não caibam.

A primeira surpresa, para quem chega com pressa de turista a fazer caixinha, é o Museu Judaico. É de uma qualidade que devia obrigar a parar dois quilómetros antes da entrada para ajustar as expectativas. Conta uma história que, contada por outros, seria impossível de acreditar: a de uma comunidade que, depois da expulsão de 1496, manteve a sua fé em segredo durante quinhentos anos, num país pequeno onde os segredos costumam durar meia hora. Quinhentos anos. Resistiram à Inquisição, ao tempo, à vergonha, ao silêncio, e quando finalmente puderam dizer quem eram em voz alta, não disseram apenas, instalaram‑se. Hoje há sinagoga, há comunidade ativa, e pormenor que ainda hoje me parece o mais extraordinário de tudo, há uma rádio judaica em Belmonte. Numa vila com a dimensão de Belmonte, há uma rádio judaica. Isto não é folclore, é um país a corrigir uma das suas piores páginas com o que tem de mais simples: tempo, escuta e gente.

Depois do Museu Judaico, percebe‑se que Belmonte levou a sério a sua própria geografia simbólica. O Museu dos Descobrimentos faz aquilo que tantos outros falham: contar Pedro Álvares Cabral sem o transformar em estátua. A poucos passos, na Igreja de Santiago, está o Panteão dos Cabrais, onde se percebe que aquela família existiu antes de ser nome de avenida. O Museu do Azeite encena uma economia rural com inteligência e sem nostalgia barata. O Ecomuseu do Zêzere lembra-nos que há um rio que atravessa a vida de muita gente do interior e que merecia, em qualquer outro país, ter um romance, um documentário e uma série em streaming. E há ainda o Castelo de Belmonte, que é onde, finalmente, se descansa, porque é o único sítio onde não nos exigem mais informação.

A sensação geral é a de uma vila pequena com critério. Em Belmonte, as coisas foram feitas com gosto. E quando uma cidade do interior é tratada com gosto pelos próprios, o resto do país acaba por ir lá ver. Há autocarros vindos de longe, há famílias com crianças, há grupos escolares, há aquele turista alemão que aparece em todo o lado e que, em Belmonte, parece estar com toda a razão. Não é o turismo de massa, esse não chega a estas alturas; é o turismo de gente curiosa, que é o melhor que pode acontecer a uma vila pequena.

Faço questão de dizer isto porque, escrevendo sobre o interior, é cada vez mais raro encontrar exemplos que justifiquem uma crónica inteiramente celebratória. Costumamos escrever‑nos como quem assina um abaixo‑assinado: lista de queixas, exigência de obras, recordação de promessas falhadas. E há razões para isso, todos sabemos. Mas, quando há sítios que fazem o que se devia fazer, é justo dizê-lo sem reservas. Belmonte é um desses sítios. Não porque seja maior, mais central ou mais financiado, mas porque alguém, em algum momento, decidiu que aquela história, a do castelo, a dos descobrimentos, a dos judeus, a do azeite, a do rio, merecia ser contada bem. E foi.

A lição é desconfortável para muitas cidades do interior. Não é falta de história. Não é falta de matéria. É falta de cuidado. Belmonte mostrou, com vagar, que basta tratar com seriedade aquilo que se tem para o resto vir atrás: visitantes, investimento, dignidade, orgulho. Não há varinha mágica nem fundo europeu que substitua esta operação simples e exigentíssima, querer.

Quando se sai de Belmonte ao fim do dia, com o carro virado para casa e a cabeça ainda nas vitrines do Museu Judaico, fica uma ideia que é meio inveja, meio alívio: ainda bem que existe. Ainda bem que houve quem soubesse fazer. Há lugares no interior que nos ensinam que o problema raramente é o tamanho. É a vontade. E essa, em Belmonte, parece andar à solta há já alguns anos.

Sugestões deste mês:

Filmes: “Maria Vitória” de Mário Patrocínio e “Torre de Centum Cellas- Veni, vidi, vici” de Sérgio Pereira

 

outubro, 2026 Romeu Curto

 

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