Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: Arca de não é

Na última semana, muitos memes e piadas e artigos foram escritos sobre o abandono de Cristiano Ronaldo e a sua fuga para a Arábia Saudita. A piada é boa – sigamos o conselho do primeiro-ministro de adoptar a mentalidade Ronaldo e abandonemos o trabalho sempre que não nos sentirmos agradados e felizes. Mas o substracto está errado. A mentalidade Ronaldo não é a mentalidade do trabalhador. É a mentalidade do patrão.
A mentalidade que Luís Montenegro nos exortou a seguir já existe em Portugal. Mas em excesso. É a mentalidade de “quem manda aqui sou eu”. É a mentalidade de “fazes como eu digo ou lixas-te”. É a mentalidade de amochar perante o poder, porque, como diz o ditado, “manda quem pode e joga quando o Ronaldo quer”. E na Federação Portuguesa de Futebol manda o cidadão Cristiano Aveiro. Não porque foi eleito, mas porque se julga eleito.
No Antigo Testamento só há um tipo que amua, que abandona o barco quando lhe apetece, e a quem os outros rogam desesperadamente que volte, que lhes dê atenção e protecção. É Deus. Leia-se os livros do Antigo Testamento e veja-se o que acontece a quem desafia as leis de Deus. Fulminados com um raio, transformados em estátuas de sal, expulsos do paraíso. Cristiano Ronaldo não abandonou a selecção. Ele condenou a civilização ao dilúvio. Principalmente ao dilúvio mediático de directos e comentários. E condenou Jesus a ter de falar mais sobre o Senhor que o abandonou do que dos quatro jogos seguidos que ganhou.
Quando o chefe do governo português nos aconselhou a ter mais mentalidade Ronaldo, talvez estivesse a pensar no esforço e sacrifício de um vencedor, mas esqueceu-se que muitas vezes (mais do que é desejável, digo eu) essa mentalidade vem acompanhada de atitudes próprias de senhor feudal do Instagram e dos patrocínios e de amuos típicos de divindades greco-judaico-cristãs.
Cristiano Ronaldo não abandonou o local de trabalho. Cristiano Ronaldo não fez greve ao jogo da selecção. Isso fazem os trabalhadores. Cristiano Ronaldo fez um lock-down. A equipa até pode jogar – e ganhar – sem Cristiano Ronaldo, mas os seguidores da FPF no Instagram nunca mais serão os mesmos.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

Deixe comentário