P- O que é a hiperplasia benigna da próstata e a partir de que idade é importante estar atento aos primeiros sinais?
R- A próstata é uma glândula que todos os homens têm, do tamanho de uma castanha, e que fica logo abaixo da bexiga. O canal por onde sai a urina, a uretra, atravessa-a pelo meio. A partir de certa altura da vida, por influência hormonal, essa glândula começa a crescer. É um crescimento benigno, mas traz um problema mecânico: à medida que cresce, a próstata aperta o canal e dificulta a saída da urina. A partir dos 50 anos vale a pena estar atento: qualquer homem dessa idade deve ter pelo menos uma conversa com o seu médico sobre a próstata. Se houver história familiar, essa atenção deve ter início aos 45.
P- É uma patologia muito frequente em Portugal?
R- Sim, cerca de metade dos homens com 60 anos já tem alterações da próstata compatíveis com hiperplasia, e aos 80 anos essa proporção ultrapassa os 80%. Nem todos ficam com queixas, felizmente, mas estima-se que um em cada quatro homens acima dos 50 anos tenha sintomas urinários com impacto real no dia a dia. Em Portugal, falamos de centenas de milhares de homens. É de longe o motivo mais comum que traz um homem acima dos 50 à consulta.
P- Que sintomas devem levar o homem a procurar um urologista e em que medida é importante não desvalorizar o aparecimento de alterações urinárias, muitas vezes associadas ao processo natural de envelhecimento?
R- Os sinais habituais são o jato urinário mais fraco, a demora a começar a urinar, a necessidade de fazer força, o pingar no fim, a sensação de que a bexiga não ficou vazia, ir muitas vezes à casa de banho e, sobretudo, ter de o fazer durante a noite. Este último, a chamada noctúria, é o sintoma que mais afeta a qualidade de vida e é normalmente aquele que conduz o doente à consulta.
P- Que tipo de respostas terapêuticas existem atualmente para a hiperplasia benigna da próstata e em que situações está indicada a cirurgia?
R- Temos hoje uma escada terapêutica bastante completa. No degrau mais baixo estão a vigilância e as medidas simples, como ajustar a hora a que se bebem líquidos, reduzir o álcool e a cafeína à noite e rever medicação que possa estar a agravar as queixas. Para sintomas ligeiros, estas medidas já têm bastante impacto.
Depois vêm os medicamentos, que continuam a ser a base do tratamento. Uns relaxam o músculo da próstata e atuam em poucos dias, outros fazem a glândula reduzir de volume ao longo de meses, e frequentemente combinam-se. Entre os fármacos e a cirurgia tradicional existem ainda as chamadas terapêuticas minimamente invasivas, como o Rezūm, que usa vapor de água e é a opção recomendada para próstatas de menor volume e em homens que fazem questão de preservar a ejaculação.
A cirurgia entra em cena em duas circunstâncias. Quando os medicamentos deixam de ser eficazes ou não são tolerados. E quando surgem complicações que, por si só, obrigam a operar: retenção urinária, infeções de repetição, cálculos na bexiga, hemorragias persistentes ou repercussão nos rins. É aqui que entra o HoLEP, que está disponível no Hospital CUF Viseu e que é hoje uma das técnicas mais avançadas para tratar esta doença.
P- Em que consiste essa técnica? Como se processa?
R- HoLEP quer dizer enucleação da próstata com laser de hólmio. Toda a operação é feita por via endoscópica, através da uretra, sem qualquer corte. Introduzimos um aparelho com uma câmara e, pela ponta, uma fibra ótica muito fina que conduz o laser.
Para explicar como se processa, costumo recorrer à imagem da laranja. O que cresce e aperta o canal é a polpa, e o que queremos manter é a casca. O laser vai separando a polpa da casca, seguindo um plano natural que existe entre as duas, e liberta o tecido inteiro para dentro da bexiga. Depois, um segundo aparelho tritura esse tecido e aspira-o. Todo o material é enviado para análise. O que fica é uma cavidade ampla, com o canal completamente livre.
P- Quais são as principais vantagens do HoLEP?
R- A primeira vantagem é que o tamanho da próstata deixa de ser um obstáculo. A resseção transuretral clássica, que foi durante décadas a cirurgia de referência, deixa de ser aconselhável acima de determinado volume. A alternativa era a cirurgia com incisão, vários dias de internamento e uma recuperação mais demorada. Com o HoLEP, o volume da próstata é praticamente indiferente. Além disso, como se remove todo o tecido que cresceu, e não apenas uma parte, a probabilidade de ser necessário voltar a operar anos mais tarde é muito baixa.
Outro benefício importante é que a perda de sangue é mínima, o que permite operar com segurança doentes medicados com anticoagulantes ou antiagregantes. Acrescento ainda o internamento curto, habitualmente de uma noite, e a possibilidade de retirar algália no dia seguinte.
Três razões para não adiar a consulta de Urologia
Desvalorizar as queixas ou alterações urinárias leva muitos homens a adiar a consulta de Urologia. Mas este “atraso” tem consequências que podem ser irreversíveis. Pedro Samuel Dias, explica: “A bexiga é um músculo e, quando trabalha anos contra uma resistência, acaba por se cansar e perder a capacidade de contrair. Nessa altura, mesmo que se resolva a obstrução, a recuperação já não é completa”.
Além disso, acrescenta o especialista, há complicações associadas que podem surgir sem aviso: “Retenção urinária aguda, com necessidade de algália na urgência, infeções repetidas, pedras na bexiga, sangue na urina e, nos casos mais avançados, compromisso da função renal”.
Por último, mas não menos importante, há outra razão para não adiar a consulta: “Os sintomas da hiperplasia e os de um tumor da próstata podem ser muito semelhantes”, alerta Pedro Samuel Dias, “e só uma avaliação médica pode identificar a origem das queixas”.



