Opinião de Elsa Salzedas: 99,3% corrigidos, 100% impreparados

Escrito por Elsa Salzedas

Digitalizar não é carregar num botão.
Portugal tem uma especial capacidade para pegar numa boa ideia, anunciá-la como uma revolução e executá-la como uma experiência improvisada. Foi, em grande medida, o que aconteceu este ano com os exames nacionais e com a sua classificação digital.
A digitalização não é, em si mesma, um erro. É até algo extraordinário e que muito aprecio, porque pode tornar o processo mais rápido, equilibrado e eficiente. O problema está em imaginar que modernizar consiste apenas em criar uma plataforma, enviar instruções e marcar uma data.
No ano passado, o exame de Filosofia foi apresentado como experiência-piloto. Não sou professora de Filosofia, sou professora de Biologia e Geologia, e nunca tive acesso a qualquer relatório que explicasse o que correu bem, o que falhou e o que deveria ser alterado. Talvez esse relatório exista. Mas, se existe, não chegou aos professores nem foi trabalhado nas escolas.
E para que serve um projeto-piloto se os seus resultados não forem conhecidos, discutidos e usados para preparar o sistema?
Ao longo deste ano letivo, não houve, pelo menos na realidade que conheço, uma preparação estruturada dos professores e dos alunos. Não foram realizadas simulações, não se estudaram coletivamente os novos procedimentos e não foi adotada uma metodologia comum para as folhas de resposta, a identificação das questões ou a utilização das folhas de continuação.
Na turma de 11º ano que lecionei, eu e o colega de Física e Química decidimos, por nossa iniciativa, aplicar ao longo do ano procedimentos semelhantes aos previstos para o exame. Habituámos os alunos às folhas de resposta que iriam encontrar no Exame Nacional, a organizar as respostas, a identificar corretamente os itens e a utilizar folhas de continuação.
Quando chegaram à prova nacional, esses alunos sabiam como proceder. Tinham maior segurança e uma vantagem prática evidente.
Mas essa preparação não resultou de uma orientação da escola. Foi uma decisão de dois professores. E isso não demonstra que o sistema funcionou. Demonstra precisamente o contrário: que a preparação dos alunos ficou dependente da iniciativa individual dos docentes.
Uma avaliação nacional não pode transformar-se numa lotaria pedagógica, em que uns alunos estão preparados porque tiveram professores que anteciparam os problemas e outros descobrem os procedimentos nas vésperas do exame.
As informações chegaram tarde, concentradas no final do ano, acompanhadas de códigos, plataformas, folhas de continuação e regras pouco experimentadas. Criou-se insegurança e, em muitos casos, verdadeiro pânico.
É verdade que alguns professores mantêm resistência às tecnologias. Mas também é demasiado fácil culpar os utilizadores quando não houve formação adequada. Enviar um manual não é formar. Disponibilizar instruções não é preparar. E explicar procedimentos nas vésperas de uma operação nacional não substitui meses de trabalho prévio.
Também as escolas têm responsabilidades. As direções deveriam ter promovido sessões práticas, os departamentos deveriam ter organizado o trabalho e os grupos disciplinares deveriam ter preparado metodologias comuns.
O que existiu foi uma cadeia de impreparação: o Ministério não comunicou com clareza, as estruturas não prepararam suficientemente as escolas e muitas escolas não prepararam atempadamente os professores.
Depois surgiu o caos habitual: informações sucessivas, versões contraditórias, problemas técnicos e escolas obrigadas a explicar às famílias aquilo que elas próprias ainda tentavam compreender.
O Ministério fala muito consigo próprio e pouco com o terreno. As orientações atravessam gabinetes, direções-gerais, institutos, júris, direções e departamentos. Quando chegam ao professor, já ninguém sabe qual é a versão definitiva.
Digitalizar não é passar folhas por um scanner e declarar que entrámos no século XXI. É redesenhar todo o processo, formar as pessoas, testar, corrigir e comunicar com clareza.
O ano letivo terminou, mas não com a serenidade de uma missão cumprida. Terminou com professores exaustos, escolas desorientadas, famílias inquietas e alunos sujeitos às incertezas de um sistema que não foi devidamente preparado para os avaliar.
E isso não é apenas uma falha tecnológica.
É uma falha de organização, de comunicação e de governação.

* Professora

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Elsa Salzedas

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