Os canais de televisão e a imprensa usam sem grande originalidade a sinédoque “Portugal está a arder” para se referirem aos fogos florestais. Poderá haver quem considere que tal figura de estilo é usada em excesso, mas eu estou convicto de que poderia ser usada ainda mais. Portugal estava a arder por causa do futebol – até um espanhol ter despejado um contentor de água fria para apagar a chama. Portugal está a arder por causa dos exames finais do ensino secundário – e vamos ver se o fogo não alastra até às universidades. Portugal está a arder por causa dos tribunais que se condenam a si mesmos pelo atraso na justiça – com José Sócrates a fazer ao mesmo tempo de pirómano, de vítima dos incêndios e de técnico florestal. Portugal está a arder de calor – mas diz que refresca para a semana.
Para todos estes fogos metonímicos, aplica-se o remédio mais popular na cultura portuguesa: esperar que passe. Esperamos que o calor passe, esperamos que se passe no exame, esperamos que a selecção passe dos oitavos-de-final. E quando não se passa, espera-se pela próxima. Contudo, é uma espera sem esperança. Fica-se à espera sem se acreditar. Então e agora? Agora espera-se. Pela próxima vez. Espera que seja diferente? Eu cá não, vai ser tudo igual ao que sempre foi.
Já sabemos que Portugal é um país que arde em poucas brasas. Arde em febre, arde em tragédia, arde em paixões. Desde que Camões escreveu que o amor arde como fogo sem que se vislumbre fumo que a literatura portuguesa se tem enchido de fogos, alguns metaforicamente fátuos. Desde os hereges – pessoas e papéis – queimados nos pátios da inquisição até às cinzas passionais de Florbela Espanca ou às labaredas telúricas de Miguel Torga, a cultura portuguesa vive com o permanente desejo de Prometeu, de entregar aos humanos o poder de controlar o fogo. E embora Portugal arda, em sinédoque ou metáfora, descontroladamente, sofremos, como o herói grego, da mesma trágica condição de estarmos presos a uma rocha alegórica e de as nossas entranhas nos serem arrancadas, quase literal e diariamente, pelas aves de rapina deste mundo.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


