Foi com surpresa que recebemos na redação um comunicado da CP com o título “Temperaturas Altas”. A empresa anunciava que, devido ao agravamento das condições meteorológicas e às temperaturas excecionalmente elevadas, iria implementar um conjunto de medidas extraordinárias para garantir a segurança e o conforto dos passageiros – não por causa dos carris, mas das carruagens velhas e sem ar condicionado.
Até aqui, nada a objetar. A segurança deve estar sempre acima de qualquer outra consideração.
Entre essas «medidas extraordinárias» encontrava-se a supressão de alguns comboios de longo curso. Entre eles, os Intercidades que ligam Lisboa à Guarda e a Guarda a Lisboa. Em bom português: na sexta-feira, sábado e domingo deixou de ser possível viajar, de tarde, de Intercidades entre a capital e a cidade mais alta do país porque… estava calor.
Os passageiros que tinham bilhete, compromissos profissionais, consultas médicas, férias marcadas ou simplesmente necessidade de viajar ficaram sem o serviço ferroviário que a empresa pública tem o dever de prestar. Quem precisou de chegar ao destino teve de recorrer ao automóvel ou ao autocarro, meios de transporte que circularam normalmente sob as mesmas temperaturas elevadas. O calor era exatamente o mesmo na estrada e na ferrovia.
O verão traz temperaturas altas. Sempre trouxe. Hoje são mais frequentes e mais intensas, é certo, mas não constituem um fenómeno imprevisível. Pelo contrário, são uma realidade que qualquer operador de transportes deve antecipar e para a qual deve estar preparado. E é precisamente para enfrentar circunstâncias difíceis que existem empresas públicas e infraestruturas modernas. O que não pode acontecer é transformar um fenómeno meteorológico esperado numa razão suficiente para interromper um serviço essencial.
A decisão da CP levanta inevitavelmente uma pergunta: que ferrovia temos afinal? Depois de décadas de investimento público, de sucessivos anúncios de modernização e de milhões de euros aplicados no setor ferroviário, será aceitável que uma linha estruturante deixe simplesmente de funcionar porque o termómetro sobe?
Os portugueses pagam impostos para manter uma empresa pública que continua a operar com material circulante envelhecido, insuficiente e frequentemente sujeito a avarias. Os atrasos sucedem-se, as supressões tornaram-se quase rotina e a oferta continua longe das necessidades do país. Agora ficamos também a saber que o calor pode ser motivo para deixar comboios na estação.
Durante décadas, as locomotivas a vapor enfrentaram verões rigorosos, invernos de neve e condições muito mais adversas do que aquelas que hoje conhecemos. A tecnologia evoluiu, os comboios tornaram-se elétricos, climatizados e digitalizados. No entanto, a perceção dos cidadãos é a de que o serviço não acompanhou essa evolução. Pelo contrário, em demasiadas ocasiões parece tornar-se mais frágil.
Há, contudo, um problema ainda mais grave.
Quando a CP suspende ligações entre Lisboa e a Guarda, não está apenas a cancelar um comboio. Está a agravar o isolamento do interior. Está a dizer às populações da Beira Interior que a sua mobilidade é secundária. Está a reforçar a ideia, tantas vezes denunciada, de que existem portugueses de primeira e portugueses de segunda, consoante vivam no litoral ou no interior.
A Guarda não pode continuar a ser tratada como o fim da linha sempre que surge uma dificuldade operacional. O desenvolvimento do interior faz-se também através da mobilidade. Sem ligações ferroviárias fiáveis, perde competitividade a economia, perde qualidade de vida quem aqui reside e perde credibilidade o discurso político sobre a coesão territorial.
Neste contexto, merece registo a reação do presidente da Câmara da Guarda, Sérgio Costa, praticamente a única voz institucional a insurgir-se contra esta decisão. O silêncio de tantas outras entidades é, infelizmente, revelador da normalização de um serviço que está longe daquilo que os cidadãos têm o direito de exigir.
A CP poderá apresentar justificações técnicas para esta decisão. O que não pode acontecer é limitar-se a comunicar que “está calor” e esperar que os portugueses aceitem, resignadamente, mais uma supressão de comboios. Porque, no fim de contas, o problema não é o calor.
O problema é um país que parece habituar-se a que os serviços públicos falhem perante aquilo que devia ser apenas mais um dia de verão. E isso, mais do que uma vaga de calor, é um preocupante sinal de resignação.


