Poderemos fazer o exercício de imaginar vários modelos de cidade, mas não sei se encontraremos algum mais belo do que a Cidade-Livro.
A cidade de Garrett, de Sophia, de Eugénio, de Agustina, de Agostinho da Silva e de tantos outros concretizou, com a força de quem lê, o modelo de cidade mais poético de sempre.
Por iniciativa da Fundação Livraria Lello, em ano do 120º aniversário da histórica livraria, o Porto viu nascer o festival literário e cultural BABELL, em co-produção com o município do Porto, juntando-se à iniciativa oito parceiros e 13 colaborações.
De 24 a 29 de junho, em 20 lugares da cidade, com 42 protagonistas de alto valor reconhecido – escritores, artistas, músicos, filósofos, fotógrafos, arquitetos, professores, curadores e musicólogos –, a cidade invicta teve a oportunidade de usufruir de um programa extenso, eclético e surpreendente.
O bilhete, para as sessões que não tinham entrada livre, era um livro, independente do seu valor monetário, adquirido em qualquer uma das livrarias aderentes, desde alfarrabistas a cadeias de livrarias. O objetivo foi encher a cidade de livros, propagando o contágio da leitura.
50 mil pessoas celebraram, em uníssono, em plena Avenida dos Aliados, a música e a literatura, num concerto grandioso que juntou os GNR, Pedro Abrunhosa e Rui Veloso, onde se apresentaram três composições inéditas, resultantes do desafio lançado pela BABELL.
Na Ribeira, um momento memorável entre o céu e o rio, com mais de 600 drones pirotécnicos que proporcionaram um espetáculo impressionante, criação de Cai Guo-Qiang, denominado “One Page”.
A Poesia tomou o Poder e subiu à varanda dos Paços do Concelho, onde poetas da cidade, presidente da Câmara do Porto e vereador da Cultura recitaram vários poemas para o público.
Assim se investe em cultura e valoriza o território e as suas pessoas. Assim se eleva uma comunidade e uma cidade.
Pois, como o festival refere, «se o livro pôde transformar o destino da Livraria, pode também ajudar a transformar o destino da cidade».
Por cá, pela cidade dos 5 F’s, não temos livrarias históricas, não temos alfarrabistas, não temos o culto do livro. Temos uma livraria no centro comercial e temos visto, nos últimos anos, um evento, também ele comercial, que usa o livro como mote, porém estamos muito aquém do alcance de um BABELL.
Como poderemos falar em igualdade de oportunidades quando estamos tão distantes do mundo maior?
Que os bons exemplos nos sirvam de inspiração e que o poder político assuma a responsabilidade pela construção de uma sociedade mais evoluída.
Até lá, estejamos atentos ao que se passa nas cidades à nossa volta e alimentamos nelas o nosso espírito, porque também merecemos.


