Opinião de Albino Bárbara: Ó Abreu, dá cá o meu

Escrito por Albino Bárbara

Logo após do grande êxito que foi o investimento chinês in “o chinesinho limpopó”, o grande Badaró apresenta, em 1985, a rábula “Ó Abreu, dá cá o meu” que era, nem mais nem menos, tudo aquilo que o Zé contribuinte pensa dos políticos quando estes torcem a mão fazendo aquele gesto típico para ver se cai algum.
Nessa altura não se falava de peculato, abuso de poder, corrupção ativa e passiva, tráfego de influências, participação económica em negócio nem tão pouco em buscas da PJ em residências, escritórios ou em partidos políticos. Era mais o favor, a cunha e o entendimento entre as partes e assim a “coisa” ficava resolvida e todos ficavam bem: o decisor com o bolso cheio e o beneficiado com a realização do favor pretendido.
Os tempos mudam. Agora a tal “coisa” é um pouco mais “soft” e, se atrás de tempo, tempo vem, não podemos esquecer que de “grão a grão enche a galinha o papo”, a teoria da bola de neve dá uma ajuda, onde a mentalidade latina sempre determina que “a ocasião faz o ladrão” e “a fome aguça o engenho” e lá está a forma de ser ou estar: porque raio não sou eu e a minha circunstância e, seguindo o pensamento do Zé, “se não a salvo a ela, ela não me salva a mim”. Caros leitores, aí estão os autênticos ladrões do Olimpo que há muito abandonaram os princípios do Zé do Telhado, do Robin, do Billy the Kid para apostarem noutros voos, tipo Madoff, Dillinger ou mesmo Arsène Lupin (o colarinho branco tem muito que se lhe diga).
Mesmo assim ainda vão aparecendo umas parelhas, género Bonnie and Clayde mais uns Zés Colmeias e uns irmãos metralhas afirmando que querem limpar Portugal, cospem para o ar sem saberem tirar a fuça chega(ndo) ao cúmulo de desviar malas que não lhes pertencem.
E… quando damos conta, nos últimos oito anos, contabilizamos cerca de 200 políticos e titulares de altos cargos públicos, arguidos em processos ou acusados de corrupção (a grande maioria procedentes do PS e do PSD). Feitas bem as contas dá dois políticos por mês: mais de 130 autarcas entre presidentes, vereadores e membros de Juntas de Freguesia, 33 deputados da nação e 25 membros de Governos, onde se inclui um primeiro-ministro, 11 ministros e 13 secretários de Estado e, lá diremos nós: “Arre porra, é demais”.
Passando os olhos pelo Índice da Perceção da Transparência Internacional de 2025, dos 182 países avaliados verificamos que os nórdicos continuam a dar cartas, enquanto o cantinho-à-beira-mar-plantado é, no espaço comunitário, o 16º e o 46º a nível mundial, mesmo percebendo que Espanha, Grécia ou Itália continuam atrás de nós… Isso não nos deixa felizes nem contentes, pois pelo andar da carruagem, mais dia, menos dia, poderemos vir a ser comparados ao Sudão, Somália, Síria ou mesmo à Venezuela.
887 anos depois da independência e 52 anos após o 25 de Abril olhemos para a nossa estrutura social, para a desigualdade, para a existência de quase dois milhões de pobres, para a cultura de privilégios, para a impunidade das elites, para a normalização da corrupção, para as fraquezas das instituições, para todos os estereótipos e preconceitos e, aqui, sim, urge perguntar: somos ou não capazes de construir uma sociedade mais livre, mais justa e mais fraterna baseada na ética, na moral e no respeito pelo outro?
Pois é… A pergunta fica no ar… Para que de futuro não continuemos a dar razão ao Badaró e podermos dizer com toda a serenidade e convicção ao Abreu “não dês aquilo que não é teu”.

Sobre o autor

Albino Bárbara

Deixe comentário