Escrever ou dizer “de quando em vez” será errado? Os entendidos dizem que está correcto, que é uma forma mais rebuscada ou erudita com o mesmo significado de “de vez em quando”. A mim até me parece mais divertida. E se atendêssemos ao sentido literal das palavras, nenhuma delas faz realmente sentido. A expressão inglesa “uma vez num entretanto” talvez se aproxime mais do significado pretendido, mas nós inventámos esta conjugação entre “de vez”, não “uma vez”, com “em quando”, e não “num prolongado período de tempo”, que tornaria a expressão demasiado longa para um português lhe dar atenção. Claro que poderíamos usar esporadicamente ou ocasionalmente, mas sempre se evita o abuso dos advérbios.
Por isso, de quando em vez, perguntam-me se tenho gosto em frequentar passeios de barco. E por passeios de barco refiro-me a qualquer forma de navegação aquática, de cruzeiros que cruzam oceanos a pequenos veículos flutuantes em rios ou lagos. Recuso por questões estatístico-naturais. Viajando frequentemente de avião, julgo sensato não desafiar a natureza duplamente. Se os humanos não foram feitos para voar, também não nascemos com guelras e barbatanas por alguma razão. Nego por motivos estético-financeiros. A indumentária necessária para pranchas, motas de água, barcarolas, iates ou cruzeiros está fora do meu gosto ou do meu alcance. Mas principalmente declino por motivos ideológico-sanitários.
Hoje, viajar de barco é uma perigosa actividade com elevado risco de contracção de doenças diversas. Um tipo entra numa embarcação, e quando dá conta, está cheio de hantavírus ou de “keffiyehs”. Doenças que afectam o sistema imunológico ou o sistema lógico. Sintomas que vão de dificuldade em respirar à dificuldade em raciocinar. Num e noutro caso, vão valendo as autoridades que salvam as pessoas da morte certa, sejam os médicos que intervêm para aliviar as dificuldades respiratórias dos pacientes que esperavam umas férias de sonho à chegada no cruzeiro, seja os soldados que intervém para evitar as barbaridades alucinatórias dos impacientes que sonham que teriam umas belas férias quando chegassem à Palestina.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


