Na passada segunda-feira, 18 de maio, ocorreu a passagem do 119º aniversário da inauguração do Sanatório Sousa Martins, uma instituição indissociável da história da Guarda pelo relevante papel que desempenhou no passado século.
A inauguração (inicialmente prevista para 28 de abril e depois para 11 de maio) dos três pavilhões que integravam o Sanatório teve lugar a 18 de maio de 1907 e contou com a presença do rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia. O Sanatório Sousa Martins foi uma das principais instituições de combate e tratamento da tuberculose em Portugal. A Guarda era uma das cidades mais procuradas do nosso país, tendo a elevada afluência de pessoas (de dentro e fora de fronteiras) deixado inúmeros reflexos na sua vida económica, social e cultural.
O fluxo de tuberculosos que vieram para o Sanatório guardense superou, largamente, as previsões, fazendo com que os pavilhões construídos se tornassem insuficientes perante a enorme procura. O Pavilhão 1 (onde funciona atualmente a sede da ULS) teve de ser aumentado um ano depois, duplicando a sua capacidade. Em 31 de maio 1953 um novo pavilhão (que ladeia hoje a atual Avenida Rainha D. Amélia) foi acrescentado aos três já existentes. Com a construção deste novo pavilhão, o Sanatório Sousa Martins procurou aumentar a capacidade de resposta às crescentes solicitações das pessoas afetadas pela tuberculose, ampliando assim o seu papel na luta contra essa doença.
Anotar hoje a decrepitude dos antigos pavilhões, o perigo permanente de derrocada (ou outras eventuais ocorrências, como foi o caso do incêndio ocorrido no pavilhão Rainha D. Amélia) e a passagem dos 119 anos após a inauguração deste Sanatório é lançar mais um alerta para o estado em que se encontra o património físico de uma instituição com merecido relevo na história da saúde e da medicina em Portugal.
Por outro lado, lembrar o Sanatório é também evocar Sousa Martins o médico cujas esclarecidas convicções em muito contribuíram para a construção desta unidade de saúde que viria a ter o seu nome, perenemente ligado à mais alta cidade de Portugal. Na Guarda, à entrada do Parque da Saúde, o busto do médico Sousa Martins é diariamente o ponto de convergência de muitos crentes da sua ação milagrosa, na linha de uma devoção popular que se manifesta também em Lisboa (no Campo de Santana) ou em Alhandra. O singelo monumento que se ergue dentro dos muros do ex-Sanatório da Guarda, a que a Rainha D. Amélia atribuiu o nome deste distinto clínico, continua a ser alvo permanente de preces e agradecimentos, pela “ajuda recebida”. Moisés Espírito Santo escreveu, neste contexto, que «Sousa Martins não é um santo católico, é um santo laico», mas o culto não deve impedir que ele seja esquecido como homem de Ciência.
José Tomás de Sousa Martins nasceu em Alhandra, a 7 de março de 1843, no seio de uma família com escassos recursos económicos. Órfão de pai aos 7 anos, foi trabalhar com a idade de 12 como praticante para a Farmácia Ultramarina, em Lisboa; frequentou o Liceu Nacional de Lisboa e a Escola Politécnica; com aulas de manhã, trabalhava de tarde na farmácia e à noite dava explicações de forma a conseguir receitas para as despesas inerentes à sua formação académica. Concluído o curso de farmácia, em 1864, continuou a frequentar a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, terminando o curso de medicina aos 23 anos, em 1866; foi sempre um aluno distinto. Eleito, em 1868, sócio da Sociedade de Ciências Médicas, em 1872 Sousa Martins lecionava já na Escola Médico Cirúrgica, onde viria a reger as cátedras de Patologia Geral, Semiologia e História da Medicina; exerceu atividade clínica no Hospital de S. José, em Lisboa, numa época em que a tuberculose ceifava anualmente milhares de vidas.
Em 1881, a Sociedade de Geografia de Lisboa promoveu uma Expedição Científica à Serra da Estrela, que contou com a participação, entre outros, de Sousa Martins; dessa iniciativa resultou a elaboração de relatórios das várias secções científicas, que aparecem compilados num volume intitulado “Expedição Científica à Serra da Estrela” e, dois anos depois, o livro “Quatro Dias na Serra da Estrela”, da autoria de Emídio Navarro. A expedição teve o mérito (e sobretudo através da determinação de Sousa Martins) de chamar a atenção dos meios científicos e clínicos para as condições que a região oferecia no tratamento da tuberculose. Como escreveu Helena Gonçalves Pinto, «a Expedição Científica à Serra da Estrela de 1881 modificaria, definitivamente, o conhecimento deste território e foi o resultado de um esforço coletivo de homens do saber, tornando assim possível a realização de um estudo científico que marcaria a história».
Sousa Martins defendeu a implantação de Casas de Saúde nesta zona, impulsionando a fundação, em 1888, do “Club Herminio”, uma associação de carácter humanitário que se manteve durante cerca de quatro anos; no verão desse ano, e correspondendo aos argumentos de Sousa Martins e de Guilherme Teles de Meneses, o médico Basílio Freire, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, instalou-se na Serra da Estrela, onde assegurou consultas gratuitas aos doentes que o procuravam.
A Guarda, após todos esforços protagonizados por vários clínicos e homens da Ciência, onde se evidenciou Sousa Martins, converteu-se na nossa “Montanha Mágica” e conquistou a justa designação de “Cidade da Saúde”, onde Lopo de Carvalho materializou a visão e o saber do médico que deu nome ao Sanatório guardense. Sousa Martins já não viu a concretização desta estrutura sanatorial, pois no dia 18 de agosto de 1897, depois de ter sido atingido pela tuberculose, pôs termo à vida.
Guerra Junqueiro, referindo-se à personalidade de Sousa Martins, escreveu que ele se deu «como o Sol dá a luz, aos miseráveis, aos tristes, aos sonhadores. Foi o amigo carinhoso e cândido, dos pobres e dos poetas. A sua mão guiou, a sua boca perdoou, os seus olhos choraram. Teve sorrisos para a graça, enlevos para a arte, lágrimas para a dor”. Aliás, ficaram bem gravadas na memória de muitos clínicos as palavras de Sousa Martins: «Quando entrardes num hospital e ouvirdes algum doente gemer, aproximai-vos do seu leito, vede o que precisa o pobre enfermo e, se não tiverdes mais nada para lhe dar, dai-lhe um sorriso».
Na Guarda da História da Saúde e das Doenças não podemos olvidar o homem, o médico e o cientista cujo nome foi dado a um dos mais destacados sanatórios de altitude; espaço e lugar de múltiplas memórias e vivências onde permanece a devoção popular e a afirmação, através de muitas vozes, da sua influência espiritual, do seu exemplo como clínico que esteve sempre ao lado dos mais desfavorecidos.
Os degradados pavilhões do ex-Sanatório Sousa Martins, ainda resistentes no agora denominado Parque da Saúde, são uma lembrança diária de vultos da medicina portuguesa e da importância que a Guarda teve no combate à tuberculose.


