É usual ouvirmos uma crítica feita aos decisores políticos, empresas e treinadores de futebol. A saber, que “não têm uma estratégia”. Porém – e pondo de lado os dois últimos – qualquer politólogo desdenharia este reparo. Por duas razões. A primeira é que não há estratégia sem visão. Ainda que aquela defina objetivos a longo prazo e a forma como se irão alcançar, não existe sem o objectivo último estar bem claro. Ou seja, um plano de ação tem sempre um sonho por detrás. A segunda razão é que, para a maioria dos decisores políticos, é mais vantajoso substituir a estratégia pela táctica. Isto é, por medidas concretas e específicas, com um alcance de curto prazo, ao serviço de objectivos menores e com recursos permanentemente ajustáveis. Em resumo, a crítica da ausência de estratégia não faz sentido. Ou porque ela não existe de per si, sem uma última ratio, ou porque foi destituída pela táctica.
Um dos momentos zen virtuais da minha preferência acontece quando me dirijo às funcionárias da charcutaria, nos supermercados, e peço duzentOS gramas disto ou daquilo. Digo sempre bem alto o género do peso pretendido. Esperando sempre pelo olhar dela, apreciador, grato, melífluo, rendido perante tamanho e insólito acerto gramatical. Que ela arrume a bata, descalce as luvas, tire a touca, liberte os cabelos, suba para o balcão e cante bem alto, apontando para mim e chamando a clientela: “és tu, só tu, finalmente chegaste / e eu, tão só, porquê tanto tempo folgaste?!” Entretanto, subia eu também e rematava o dueto: “és tu, só tu, por quem sempre sonhei / são gramas, mas de ouro, que por ti ganhei!” Seguindo-se uma sessão de sapateado pelos corredores, capaz de fazer inveja à dupla Fred Astaire/ Ginger Rogers.
Assisti a excertos do recente debate Montenegro versus PNS. O suficiente para, à maneira de um filósofo estruturalista, dissecar a narrativa e o modelo de comunicação. Na verdade, o que se viu, neste e noutros “debates”, foi uma série de alegações e contra alegações de marketing político. Sendo o eleitorado uma espécie de júri infantilizado. Mas ao contrário dos debates jurídicos, onde a retórica, embora impressione, de nada vale sem evidências que a legitimem, aqui as coisas passam-se de modo diferente. Constroem-se edifícios só com cimento e vacuidades, sem o reforço do betão armado. Recuemos a 1968, aos EUA. Nesse ano, na sequência das convenções dos republicanos e democratas, William F. Buckley e Gore Vidal foram convidados, pelo canal ABC, a analisar o momento político, em modo ponto/contraponto. O modelo que veio a prevalecer até hoje nos debates televisivos. A partir dessas emissões, Morgan Neville e Robert Gordon realizaram o documentário “Best of Enemies” (link do artigo nos comentários infra). A escolha dos intervenientes não podia ser melhor. Buckley, um conservador, académico, católico, contra Vidal, escritor, liberal, homossexual. “Liberal”, na terminologia política americana, significa “esquerdista”. O embate foi duro, embora cavalheiresco. Em causa, convicções genuínas, modelos filosóficos diferenciados, uma guerra cultural em perspectiva. Mas sem que ninguém cavasse trincheiras. Ou perdesse a compostura. Um compromisso comum com a pluralidade ideológica no espaço público. Ainda que revelada de modo visceral. Ainda que com ataques pessoais pelo meio. Gore chamou ao oponente “cripto-nazi” e Buckley ripostou, apelidando o escritor de “maricas”. Voltemos aos nossos “debates”. O que conta, no final, é quem “ganhou”. E quem faz essa avaliação? Um conjunto de analistas políticos tidos como líderes de opinião. Até parece que os políticos debatem para esse júri reduzido e não para o público em geral. A quem verdadeiramente parece só interessar o resultado do jogo. Por outro lado, os tempos impostos favorecem bagatelas populares, mas sem interesse real para o país. Uma realidade exponenciada pelas limitações e vistas curtas dos contendores. Ou seja, as exigências do modelo televisivo sobrepuseram-se às do debate político na ágora.
Num dia qualquer, até pode ser em Maio, descobrirás, pelos teus passos, e por muito que a vaidade te segrede o contrário, que nada inventas quando escreves. Vamos lá ver se consigo explicar isto, sem recurso ao estafado paradoxo “escutar o silêncio”. O mundo é uma cacofonia desordenada, com uma ordem oculta, de onde escapam interlúdios musicais e palavras de vida ou de morte. O teu privilégio é poderes traduzir esse aparente caos. Criar a tua voz especiosa de tradutor. Com sorte, as palavras só aparecem no final.
* No calendário vegetal celta, significa “Salgueiro”
** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia



