A tauromaquia popular na raia do Sabugal e na Guarda cruza a história local, a antropologia e a memória comunitária, convergindo em torno da singularidade da Capeia Raiana e das antigas praças de touros que marcaram a paisagem da região. Como dizia Charles Chaplin: «En las corridas se reúne todo: color, alegría, tragedia, valentía, ingenio, brutalidad, energía y fuerza, gracia, emoción…», sem esquecer o fascínio universal pelos touros de Ernest Hemingway, que, maravilhado, elevou a tauromaquia a uma metáfora da condição humana, onde analisa a tragédia com regras fixas e proximidade com a morte.
Guarda, terra de touros?
A presença da tauromaquia na cidade da Guarda remonta, pelo menos, ao período da dominação filipina (1580–1640), beneficiando das relações privilegiadas do bispo D. Nuno de Noronha com D. Filipe II. Naquela época, os espetáculos realizavam-se em praças improvisadas, como, aliás, eram todas, em frente ao edifício que foi do Governo Civil, junto ao Botaréu do Campo (1688). O Largo do Curro ficava entre o Convento de Santa Clara e a Quinta do Retórica.
Ficaram famosos os grandes festejos que se realizaram em 1758 na Guarda, como manifestação de regozijo popular pelas melhoras do rei D. José I, após o atentado de que fora vítima, e que, naturalmente, incluíam o que se chamava “correr os touros”.
Novamente, em 1793, na sequência do nascimento da Infanta D. Maria Teresa de Bragança (Princesa da Beira), filha primogénita de D. João VI e D. Carlota Joaquina, realizaram-se várias touradas incluídas nos sumptuosos festejos que então se fizeram na Guarda.
Com o passar dos séculos e o crescente interesse social, económico e cultural, a cidade sentiu a necessidade de dispor de recintos próprios e fixos:
• A Primeira Praça (1894): Situada no Campo da Dorna – onde se veio a erguer o edifício da antiga Junta de Energia Nuclear –, foi inaugurada em junho de 1894 para as festividades de São João. Atraía multidões através de comboios especiais organizados pelas companhias ferroviárias. Anos mais tarde, já em ruínas, a madeira da estrutura foi reaproveitada como lenha para o hospital e asilo locais.
• A Segunda Praça (1924): Erguida no mesmo local, também em madeira, era uma estrutura imponente com lotação de 3.500 lugares — um número impressionante para uma cidade que, à época, rondava os 7.000 habitantes. O rigor das condições climatéricas da Guarda ditou a sua rápida decadência, transformando o espaço em local de brincadeira para os mais jovens. Posteriormente, os eventos taurinos tornaram-se esporádicos e dispersaram-se por recintos improvisados.
A Raia e a Capeia Raiana: Património vivo
Se na cidade o percurso taurino foi atribulado, na zona sul do distrito –especialmente em Riba Côa (concelho do Sabugal) e na bacia de Almeida –, a tradição tem sido ininterrupta. A Capeia Arraiana, manifestação popular única no mundo, foi o primeiro registo a inaugurar o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial em Portugal.
A sua génese perde-se no tempo, fortemente enraizada na vizinhança com a província de Salamanca, na partilha histórica com o antigo Bispado de Ciudad Rodrigo e nas técnicas ancestrais de caça e condução de gado bravo descritas por investigadores como Francisco Flores Arroyu.
O encerro dos touros é idêntico, mas a capeia arraiana distingue-se pelo seu caráter profundamente coletivo, centrado na força do forcão, na entreajuda e na solidariedade comunitária. O ponto alto ocorre, agora, em agosto, altura em que as aldeias raianas renascem com o regresso dos emigrantes, movimentando a economia local e consolidando a identidade destas gentes.
A sombra do perigo: Memória e tragédia
O risco é imanente ao encerro e à lide a “cuerpo limpio”. Mas, quantos e quem foram as vítimas fatais? Onde e como ocorreram? Encontrar respostas exatas, retirando os casos mais recentes, é um desafio complexo pois assentos de óbito paroquiais quase nunca mencionam a verdadeira causa de morte.
Curiosamente, na memória popular era muitas vezes o nome do boi (só em tempos recentes designado por touro) que perdurava e não o do morto. Assim, o próprio animal passava a ser conhecido pelo nome da sua vítima (o “boi do Samarra”, o “boi do ti João Pinto”).
Mas não era apenas na arena que se morria. A tragédia espreitava nos preparativos, ou sob o fogo das armas de carabineiros.
A Joaquim Manuel Correia, ilustre cronista das terras de Riba Côa, não escapou a importância da capeia, embora por ela não nutrisse grande apreço. Nos seus relatos refere a ocorrência de vários mortos, mas sem especificar onde e em que circunstâncias. «Infeliz do que se deixa apanhar, que fica estendido na arena, às vezes para não mais se levantar, como várias vezes tem sucedido», afirma ele.
Apesar dos perigos, dos surtos epidémicos, dos cordões sanitários e da profunda desertificação demográfica, a capeia continuou a ditar o ritmo de vida e a coesão social daquelas comunidades. De vários episódios trágicos, alguns gravados na memória coletiva, fica este registo:
• 1821 (Aldeia do Bispo): Manuel Lourenço, de 20 anos, perdeu a vida na sequência “duma estocada que lhe deu um boi que lhe tirou as tripas para fora”, como consta do termo de óbito assinado pelo cura Albano de Andrade Coelho.
• 1850 (Os Forcalhos): Um dramático relato recolhido por José Martins, em “Drama Sob as Nuvens”, descreve a investida de um boi contra um carro de lenha, colhendo mortalmente um espanhol de Casillas de Flores, perante a impotência dos assistentes.
• Década de 1860–1870 (Vila Boa): Uma m
ulher idosa, conhecida como “ti Ângela”, foi colhida e morta numa rua da aldeia por um touro que conseguira fugir da praça, espezinhando o que encontrava pelo caminho.
• Início do Séc. XX (Foios e Nave): Há registo oral de um homem morto por um touro nos Foios e de um caso semelhante na Nave, embora a ausência de registos paroquiais detalhados impeça obter mais informações fidedignas.
• 1930 (Alfaiates): Manuel Bonifácio, o “Manuel Siroilas”, natural de Aldeia da Ponte, deslocou-se a Alfaiates para ver a capeia. Num momento de descuido junto ao pelourinho, foi colhido e violentamente levantado no ar repetidas vezes. Transportado de padiola para a sua terra natal, acabou por não resistir aos ferimentos.
• 1933 (Aldeia do Bispo): Decorria a lide do chamado boi grande quando este, de repente, foi em perseguição a vários homens que se procuraram refugiar no próprio curral dos touros. Subiu um balcão que ali havia, deitando tudo abaixo, incluindo os grandes blocos de pedra e as pessoas que ali se encontravam.
Na praça, Zé Luís Brites e Eduardo Nunes tentavam descarregar um carro de giestas para abrir caminho e facilitar a fuga ao animal. O touro acabou por escapar, mas, infelizmente, houve graves consequências: ficaram feridos o “ti João das Barbas” e António Maria Engrácia Coelho, tendo pior sorte o “ti João Pinto”, que veio a falecer.
• 1941–1942 (Aldeia da Ponte): Na véspera da capeia, a rapaziada da terra, incluindo o “ti Manuel Justino”, partiu em busca dos touros à ganadaria espanhola de El Natxo. Concentrados na condução do gado, os homens foram surpreendidos por carabineiros espanhóis que aguardavam à espreita na fronteira e abriram fogo. No pânico que se instalou, o “ti Manuel Justino” foi atingido e tombou sem vida no local.
• 1943 (Aldeia da Ponte): Eram mordomos Felisberto Marcos, António Rodrigues (o Fofa), Manuel Tourais (o ti Sordo) e José Bino (o Camau). Durante a capeia, o Samarra – homem popular na terra e pai de uma vasta prole – protagonizou um ato de coragem ao atirar-se em socorro de um filho que estava prestes a ser alcançado por um touro. No entanto, quando tentava desesperadamente levantar o rapaz e passá-lo para cima de um carro de bois, a sorte foi madrasta: o animal investiu, agarrou-o com os dentes e ergueu-o repetidas vezes no ar com violência brutal. O filho, de apenas 9 anos, acabou por ser salvo, mas o pai pagou com a vida.
Encerro em Aldeia da Ponte em 1943. Á frente dos touros Porfírio Prata, Felisberto Marques e avô de Ismael Marcos Prata, da RTP.• 1954 (Aldeia Velha) — O Insólito “Boi do Chinca”: Esta capeia ficou célebre devido a um episódio singular. Um touro, que já havia sido lidado dias antes em Aldeia do Bispo, investiu contra um homem conhecido pelo apelido de “Chinca”. Numa cabriola aparatosa, o animal despiu-o por completo em plena praça, gerando gargalhadas e um imenso gáudio geral. As mulheres comentavam com aberta brejeirice que o bicho lhe tinha deixado “a trastada toda à mostra”. Resgatado com dificuldade pela manobra arriscada de António Nagalhos, natural de Aldeia do Bispo, o “Chinca” guardou gratidão eterna. Sempre que se cruzavam, cumprimentava-o com a frase: «Aqui está quem me comprou a vida». Quanto ao animal, ganhou estatuto de lenda local, passando a ser eternizado como o “Boi do Chinca”.
• 1967 (Aldeia do Bispo): Sendo mordomos os irmãos Adriano e Manuel Abel Monteiro, o festejo trouxe uma novidade: pela primeira vez, os touros eram de ganadarias portuguesas. Contudo, a capeia ficou ensombrada pela morte do “ti Zé Pachequim”, natural da Lageosa, colhido debaixo de um carro de bois onde se refugiara. Uma morte horrorosa a que assisti em direto, guardando marcas e pesadelos que me assombraram durante anos. Como se o destino quisesse fechar um ciclo trágico, no ano 2000, um neto da vítima, António Ramos, foi também colhido com extrema gravidade na mesma aldeia após cair no interior dos currais.
• 1970 (Soito) —Na Festa de Nossa Senhora da Granja, os jovens do Soito, sem disporem de um forcão próprio, decidiram pedir um emprestado à povoação vizinha de Nave. No trajeto, por uma estrada então acidentada e alcantilada, o reboque onde seguiam capotou violentamente. No desastre perdeu a vida Isidoro de Oliveira Manso – irmão de Norberto Manso, um dos impulsionadores do posterior reconhecimento patrimonial da capeia raiana.
• 1974 (Aldeia do Bispo) — Os mordomos José Eduardo Luís Manso (“Sousa”) e António José Fernandes Basílio (“Rato”) abriram a tradição à modernidade. Pela primeira vez na história da capeia, a mordomia integrava duas raparigas: Maria Eduarda Esteves Pires e Maria Neves Luís do Vicente. Na arena, após o autor testar na primeira pessoa a dureza da praça – ao levar uns valentes trambolhões de um touro que muitos apontavam como um verdadeiro “miúra” –, a fatalidade abateu-se sobre o “ti Júlio Ferreira”. O animal colheu-o com fúria cega, arrastando-o para o interior do curral, onde o pinchou repetidas vezes, num assalto a que já nada havia a opor. Apesar do socorro, faleceu pouco depois. Numa demonstração da paixão visceral daquelas gentes, os seus filhos, firmes perante o luto, continuaram durante longos anos a lidar touros. Júlio Ferreira Lourenço (nascido a 5 de setembro de 1936, filho de António Lourenço e Isabel Maria Ferreira) deixou viúva Berta Esteves Grancho.
• 1975 (Aldeia Velha): Durante a lide, um touro investiu com tal ímpeto que conseguiu galgar o forcão, atingindo com violência brutal Eduardo Ferreira – irmão de Norberto Pedro, que viria a ser o último comandante da Guarda Fiscal em Aldeia do Bispo. Gravemente ferido, as lesões revelaram-se fatais.

• 1980 (Vila Boa, cerca): A lide transformou-se em tragédia quando um touro investiu implacavelmente contra Francisco Afonso, afetuosamente conhecido por “Chocho”. Colhido de maneira violentíssima e lançado ao ar, perdeu a vida na praça. O trauma na pequena aldeia foi de tal ordem que as capeias em Vila Boa ficaram suspensas durante décadas.
• 1981 (Aldeia do Bispo): Uma capeia que se distinguiu claramente do molde tradicional, pois integrou não só a habitual capeia popular, mas também a atuação do cavaleiro tauromáquico Manuel Jorge, natural de Nave de Haver, e a lide a pé do matador de touros Amadeu dos Anjos, que abateu, ilegalmente à época, um touro diretamente na praça da aldeia.
• 1988 (Aldeia do Bispo): Tudo parecia decorrer na mais perfeita harmonia e alegria festiva, mas o destino reservava um golpe duro: no momento delicado e arriscado do carregamento dos touros, José Alegria – uma figura emblemática, pitoresca e muito querida da terra –, apesar de repetidamente avisado dos perigos, descuidou-se por momentos e foi esmagado mortalmente.
• 1995 (Lageosa): Com touros vindos da ganadaria de D. Emiliano, em Fuente Guinaldo, o temperamento expansivo e entusiasta de Zé Minhoto – alcunha pela qual era conhecido – não o livrou do perigo. Apanhado desprevenido pela agilidade e fulgor de um touro, sofreu colhidas severas que lhe custaram a vida.
• 1997 (Aldeia do Bispo): Enquanto uma bezerra entretinha os mais jovens na arena, soltou-se inesperadamente um touro. Amândio Canhoto, um dos homens mais destemidos da terra, adiantou-se para lhe fazer frente, mas resvalou no chão. Apercebendo-se do perigo iminente, António Serra atirou-se prontamente para o salvar, cortando a trajetória do animal; contudo, ao entrar no salva-vidas para se abrigar, a sorte foi-lhe madrasta e acabou colhido mortalmente. Nada houve a fazer!
* Investigador da história local e regional



