Opinião de Daniel Lucas: A candidatura já ganhou. Falta perceber se a Guarda

Escrito por Daniel Lucas

Quando se entra em jogo, entra-se para vencer. Mas qualquer pessoa que já tenha competido sabe que nem sempre o melhor trabalho termina em primeiro lugar. Isso não significa falta de competência, de dedicação ou de qualidade. É assim no desporto, nas empresas e nas instituições. É assim na vida! E será assim na candidatura da Guarda à Capital Portuguesa da Cultura.
Claro que queremos vencer. Claro que acreditamos que a Guarda tem história, património, identidade e uma dinâmica cultural capazes de justificar essa distinção. Mas há algo que me parece ainda mais importante. Pela primeira vez, temos a oportunidade de pensar o concelho em conjunto. De sentar à mesma mesa associações, coletividades, escolas, IPSS, empresas, artistas, agentes culturais, instituições e cidadãos. De imaginar a Guarda que queremos deixar às próximas gerações.
Uma candidatura desta dimensão não começa quando o dossiê é entregue, nem termina quando o júri anuncia a decisão. Começa quando uma comunidade decide acreditar em si própria. Por isso, engana-se quem pensar que este é apenas um projeto do executivo da Câmara Municipal. Não é. É um projeto da Guarda. E, por isso mesmo, se um dia a candidatura não vencer, os vencidos seremos todos nós. Mas também será verdade o contrário.
Se esta candidatura conseguir mobilizar o concelho, despertar orgulho, criar novas ideias, fortalecer parcerias e deixar um legado para lá do concurso, então já terá cumprido uma das suas maiores missões. É precisamente por isso que espero que todos estejam à altura deste momento. E, sobretudo, espero que não apareçam os profissionais da demolição. Aqueles que têm uma capacidade absolutamente extraordinária para encontrar defeitos antes de existir obra. Os que conseguem transformar qualquer oportunidade num problema. Os que preferem uma Guarda dividida a uma Guarda unida, desde que possam dizer, no fim, que tinham razão. Espero também que ninguém apareça, de repente, a garantir que, afinal, estava tudo remexido e abandonado. Porque há uma estranha habilidade que, por vezes, se instala entre nós quando alguém começa a construir alguma coisa, aparece sempre quem já encontrou os escombros… mesmo antes de a obra terminar. Curiosamente, muitas vezes os escombros aparecem apenas depois de começarem as marteladas.
A Guarda não precisa de mais martelos. Precisa de mãos para construir, para apoiar, para discordar, quando for necessário, mas sempre com a preocupação de melhorar e nunca com a satisfação de destruir. Criticar faz parte da democracia. Sabotar nunca fez parte do desenvolvimento. Que cada um tenha a liberdade de pensar diferente. Mas que ninguém tenha a tentação de torcer para que corra mal apenas para poder dizer, no dia seguinte: “Eu avisei”.
Se a Guarda perder essa capacidade de acreditar em si própria, então não haverá título que a salve. Mas, se souber unir-se em torno de um sonho comum, independentemente do resultado final, já terá conquistado aquilo que nenhuma classificação consegue atribuir. O verdadeiro título. O de uma comunidade que percebeu que as grandes vitórias começam muito antes de serem oficialmente anunciadas.

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Daniel Lucas

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