Muitos dos novos casos de cancro da boca são diagnosticados em fases já avançadas, o que exige tratamentos mais complexos e diminui as probabilidades de cura.
Um dos maiores desafios que a doença coloca é precisamente este: as lesões iniciais são, com frequência, indolores. Uma pequena ferida que não cicatriza, uma mancha branca ou vermelha, uma úlcera persistente, um endurecimento da mucosa ou uma alteração da língua parecem alterações sem importância, mas podem corresponder aos primeiros sinais de um tumor. O problema é que, por não causarem dor, são frequentemente desvalorizados durante semanas ou até meses.
É importante perceber que nem todas as lesões da boca são um cancro, mas algumas podem representar lesões potencialmente malignas. As chamadas leucoplasias (placas brancas), eritroplasias (placas avermelhadas) ou lesões mistas merecem sempre uma avaliação cuidadosa, so bretudo quando persistem para além de duas semanas. Também alterações na mobilidade da língua, dificuldade em engolir, dor persistente, sensação de corpo estranho, rouquidão prolongada ou o aparecimento de um nódulo no pescoço podem ser sinais de alerta que justificam observação médica.
A boa notícia é que, quando identificado precocemente, o prognóstico melhora de forma muito significativa. Hoje, sabemos que o momento do diagnóstico faz toda a diferença. Tumores identificados em fases iniciais têm taxas de cura muito superiores e permitem tratamentos menos agressivos, com melhor preservação da fala, da deglutição, da mastigação e da qualidade de vida. Pelo contrário, quando o diagnóstico é tardio, pode ser necessário recorrer a cirurgias mais extensas, frequentemente associadas a radioterapia e, em alguns casos, quimioterapia.
A observação da cavidade oral deve fazer parte dos exames de rotina realizados não só por médicos dentistas e estomatologistas, mas também por médicos de família e otorrinolaringologistas, que têm um papel fundamental na identificação precoce de alterações suspeitas. Da mesma forma, há cuidados que todos devemos ter, como observar regularmente a boca e procurar uma avaliação médica sempre que uma lesão persistir mais de duas semanas ou apresentar características que levantam dúvidas.
A maior parte dos doentes não procura ajuda por sentir dor, mas porque a lesão “não desaparece”. Essa persistência é precisamente o sinal que nunca deve ser ignorado. Perante uma alteração da boca que não cicatriza, a melhor decisão é não esperar.
Quando existe suspeita clínica, a referenciação atempada para uma consulta de Cirurgia Maxilofacial é essencial. Após uma avaliação especializada e a realização dos exames complementares necessários, o caso é apresentado em Reunião de Grupo Multidisciplinar para a determinação da melhor estratégia terapêutica. A rapidez e o rigor neste encaminhamento traduzem-se numa diferença decisiva no prognóstico e na qualidade de vida do doente.
Se há uma mensagem a reter, é esta: o cancro da boca pode ser silencioso nas fases iniciais, mas raramente surge sem dar sinais. Reconhecê-los, valorizar as lesões persistentes e promover uma referenciação precoce para Cirurgia Maxilofacial são passos fundamentais para aumentar as hipóteses de cura e reduzir o impacto desta doença.
* Especialista em Cirurgia Maxilofacial no Hospital CUF Viseu
N.R.: Esta secção é uma colaboração mensal do Hospital CUF Viseu, na qual os seus profissionais partilham conselhos e dão dicas sobre saúde.


