A Guarda anunciou que será candidata a Capital Portuguesa da Cultura em 2028, entrando numa disputa com outros municípios do nosso país. O município vencedor será conhecido a 9 de dezembro deste ano, o que significa que os projetos de candidatura terão de ser apresentados muito antes dessa data. Como sei, por experiência própria, o quão exigente é o processo de elaboração de um dossier de candidatura – estive, durante dois anos, envolvida no trabalho de preparação da candidatura anterior da Guarda a Capital Europeia da Cultura – fui informar-me sobre os prazos deste processo e fiquei surpreendida ao saber que a data limite para apresentação das candidaturas é, pasme-se, 27 de setembro de 2026: daqui a apenas dois meses.
A Guarda não tem tido, nos últimos anos, uma estratégia cultural consistente. Perdeu identidade, ficou sem oferta regular de cinema, degradou a qualidade da programação do Teatro Municipal da Guarda e vive ao sabor de iniciativas avulsas, sem um rumo reconhecível. Vejo com agrado a ambição de participar neste tipo de competições, mas não é em dois meses – nem em quatro, nem em seis, nem em oito – que se prepara um projeto coerente, robusto e transformador.
E basta ler o regulamento para perceber porquê. Uma candidatura deste tipo não se resume à apresentação de um cartaz de espetáculos ou um conjunto de intenções bem escritas. Exige que o município demonstre uma estratégia cultural de longo prazo, explique de que forma a candidatura se integra nessa estratégia, identifique o legado que pretende deixar, apresente um programa artístico inovador, um modelo de governação autónomo, um plano de financiamento credível, mecanismos de avaliação de impacto, estratégias de envolvimento da comunidade, políticas de acessibilidade, participação dos agentes culturais locais, valorização do património, articulação com parceiros e uma visão clara para o desenvolvimento cultural, social e económico do território.
Tudo isto implica um processo de escuta, reflexão e construção coletiva. Implica reunir com associações, artistas, agentes culturais, escolas, instituições sociais, empresas, universidades e cidadãos. Implica diagnosticar, definir prioridades, criar consensos, estabelecer compromissos e desenhar um projeto que sobreviva muito para além do ano em que se ostenta um título.
Ora, nada disto se improvisa durante os meses de agosto e setembro, precisamente quando grande parte das instituições, associações e profissionais se encontra em período de férias. Uma candidatura desta natureza deveria ser o culminar de anos de trabalho e não o ponto de partida de uma corrida contra o calendário.
Infelizmente, esta forma de governar já não surpreende. Primeiro anuncia-se, depois logo se vê como se faz. Importa mais o impacto da notícia do que a consistência do projeto. E assim se vive da política do anúncio, da fotografia e do efeito imediato, mesmo quando isso compromete a credibilidade de iniciativas que mereciam muito mais.
A Guarda tem todas as condições para aspirar a ser Capital Portuguesa da Cultura. Tem património, história, criadores, associações, instituições e talento suficiente para construir uma candidatura competitiva. O que lhe falta não é potencial, é planeamento, estratégia e respeito pelo tempo que a cultura exige, porque a cultura não se fabrica artificialmente, não se encomenda nem se monta em sessenta dias. Constrói-se com visão, continuidade, trabalho e participação. Quando isso não acontece, o risco é transformar uma excelente oportunidade em mais um exercício de fogo-de-vista.
Entre o querer e o fazer está o trabalho e esse temos visto pouco.


