Opinião CUF de Fernando Barata: Como transmitir confiança a quem tem cancro do pulmão?

Escrito por Fernando Barata

O telefone toca e alguém nos diz: “Tenho cancro do pulmão”. Descobrir o que responder é um desafio que ninguém está preparado para enfrentar. O medo de escolher a palavra errada pode fazer com que nos calemos, quando, do outro lado, aquela pessoa de quem gostamos e que tanto estimamos precisa de nós. Não existe a resposta certa. O que importa é estar presente e ouvir.
A pessoa está em choque. Não vê motivo para ter um cancro, vai ter de realizar mais exames, ainda não conhece um plano de tratamento e passou as últimas horas “afogada” no Google, em consultas e pesquisas sobre a unidade de saúde onde será seguida, a equipa médica, o tipo de exames e terapêuticas, o tempo para a decisão e o tempo de vida.
Este não é o momento de partilhar estatísticas, sugerir suplementos alimentares ou contar que já teve um tio com a mesma doença. Devemos parar, ouvir com atenção e validar o impacto da dor, sem minimizar o medo. Cada indivíduo é único e existem diferentes níveis de adequação e de necessidades médicas e sociais. Partilhe confiança nas orientações da equipa médica, indique linhas de apoio especializado, mas, mais importante, garanta um apoio emocional contínuo, discreto e adaptado à pessoa.
Após o diagnóstico, o estigma – marca negativa que traz desvalorização, culpabilização e exclusão – associado ao cancro do pulmão tem efeitos negativos muitas vezes graves na vida das pessoas. Este impacto pode passar por um maior sofrimento físico, psicológico e espiritual, um maior isolamento social, perda de qualidade de vida, ansiedade, angústia e depressão. Muitos doentes ocultam o seu diagnóstico, mesmo perante pessoas próximas, devido à vergonha.
Hoje, para todos os doentes com diagnóstico de cancro do pulmão, a mensagem mais importante é que faz sentido ter confiança nos marcantes avanços da oncologia torácica. Quanto ao tempo de vida, este dependerá de muitos fatores. Mas, mesmo na doença avançada, duplicámos e triplicámos taxas de resposta e tempos de vida.
Nos últimos dez anos, evoluímos e muito nos cuidados oncológicos, quer a nível público, quer privado. Há inovação e otimização do diagnóstico ao tratamento. Há evolução na área cirúrgica com intervenções minimamente invasivas e a cirurgia robótica. Há evolução na radio-oncologia com modernas tecnologias de precisão e eficácia. Há evolução nas terapêuticas sistémicas com a imunoterapia ou as terapêuticas alvo isoladas ou combinadas com a quimioterapia.
Temos hoje um acompanhamento integrado, multidisciplinar do doente com cancro do pulmão, um envolvimento em rede com todos os níveis de cuidados, uma maior proximidade dos doentes com o centro de tratamento através de novas plataformas, uma maior participação dos nossos doentes em estudos clínicos nacionais e internacionais. Estamos a aumentar a educação e a literacia sobre cancro do pulmão. E vamos continuar a melhorar para dar a todos mais vida com qualidade.
Por isso, se alguém lhe disser “tenho cancro do pulmão”, lembre-se: faz sentido ter confiança, faz sentido transmiti-la.

* Pneumologista no Hospital CUF Viseu

N.R.: Esta secção é uma colaboração mensal do Hospital CUF Viseu, na qual os seus profissionais partilham conselhos e dão dicas sobre saúde.

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Fernando Barata

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