Editorial de Luís Baptista-Martins: Cultura: a mais duradoura infraestrutura de desenvolvimento

Há muito que as sociedades mais avançadas compreenderam que o verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto, pela expansão das infraestruturas ou pelos indicadores estatísticos da economia. O progresso sustentável de um território resulta, sobretudo, da capacidade de produzir conhecimento, criatividade, identidade e coesão. E é precisamente nesse domínio que a cultura assume uma centralidade absoluta.
Durante décadas, persistiu uma visão redutora que confinava a cultura ao universo do entretenimento ou da fruição estética, encarando-a como um luxo reservado aos momentos de prosperidade económica. Hoje, porém, a evidência demonstra exatamente o contrário: a cultura não é consequência do desenvolvimento; é uma das suas causas mais determinantes.
As economias contemporâneas assentam cada vez mais na inovação, na criatividade e no talento. Não se trata apenas de produzir espetáculos, festivais ou exposições. Trata-se de criar ecossistemas culturais capazes de gerar emprego qualificado, atrair investimento, estimular o turismo sustentável, fixar população jovem, combater a desertificação do interior e reforçar o sentimento de pertença das comunidades.
Cada euro investido na cultura produz efeitos multiplicadores em diversos setores: restauração, hotelaria, comércio local, serviços, indústria criativa, educação, investigação e inovação. Mas existe uma dimensão ainda mais profunda, dificilmente quantificável, embora decisiva: a cultura produz capital social. Gera confiança, participação cívica, autoestima coletiva e capacidade de imaginar o futuro.
As cidades que hoje admiramos não são apenas aquelas que construíram estradas ou parques industriais. São aquelas que investiram simultaneamente no conhecimento, na educação, na ciência e na cultura.
Já o escrevi muitas vezes: Bilbao transformou-se através do Museu Guggenheim, Guimarães conheceu uma profunda renovação com a Capital Europeia da Cultura em 2012, Braga consolidou uma estratégia cultural que reforçou a sua atratividade nacional e internacional. Em todos estes casos, a cultura deixou de ser um custo para passar a ser reconhecida como investimento estratégico.
É neste contexto que deve ser entendida a candidatura da Guarda a Capital Portuguesa da Cultura 2028.
Num tempo em que muitos territórios procuram desesperadamente diferenciar-se, a Guarda possui aquilo que nenhum marketing territorial consegue fabricar artificialmente: autenticidade. É a cidade mais alta do país, mas também cidade de fronteira e capital regional – tem história, património, “traça” medieval e uma aldeia histórica, o seu Centro Histórico, que precisa de ser reabilitado, mas que dá lastro e alma à cidade. É profundamente histórica e potencialmente contemporânea. Esta singularidade geográfica e cultural pode transformar-se num poderoso fator de afirmação nacional.
Depois de falhada a candidatura a Capital Europeia da Cultura, um projeto extraordinário, integrador e de uma capitalidade regional única, a Guarda volta a ter a cultura como o ponto de partida para uma utopia de futuro.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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