Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: Eu lembro-me

Atravesso o Atlântico, chego à América, ao norte da América, ao país que, por nao ter a violência do México ou o Trump como presidente, se tornou, sem precisar de fazer nada de especial, o país bom do norte da América.
A primeira paragem é em Montréal, no aeroporto que tem o apelido de dois ex-primeiros-ministros do Canadá, Trudeau. Sem primeiro nome, todas as gerações da família Trudeau terão sempre um primeiro-ministro e um aeroporto.
O primeiro choque cultural é abrir uma garrafa de plástico. Choque e horror. Abrir a tampa sem o pequeno cordão umbilical que liga a tampa ao gargalo, alem do susto inicial, tornou-se uma prova de perícia. Três em cada quatro tentativas de abrir uma garrafa acabam com a tampa inevitavelmente no chão. As instituições da União Europeia têm uma forma muito subtil de nos convencer da superioridade das suas decisões. Aposto que foi para coisas destas que criaram este programa de mobilidade universitária, para sairmos da Europa e percebermos a falta que nos fazem as tampas que não caem quando se abre uma garrafa.
O destino final é uma cidade que fica no cruzamento de dois rios e que se chama, apropriadamente, Trois-Rivières. A passagem pelo controlo de fronteira leva menos de dez minutos. Quando me dirijo ao tapete das bagagens, as malas já estão a sair. Sem deputados do Chega por perto, a minha chega sã e salva. Seguem-se uma sucessão de transportes públicos até àquela pequena cidade, autocarro, metro, autocarro, que é feita com rapidez e sem sobressaltos. Não estou habituado a uma vida com tanta eficácia. Estou sempre com medo de me ter esquecido de alguma coisa ou de ter quebrado alguma regra.
Nas ruas de Trois-Rivières, os automóveis param nas passadeiras e nos cruzamentos mesmo antes dos peões lá terem chegado. Pode parecer simpatia e civilidade, mas cria uma pressão social para andar mais depressa e atravessar a porra da passadeira de uma vez. Tento dizer com um gesto aos motoristas que passem, que eu tenho tempo, que não quero atravessar a passadeira a correr, mas eles respondem com um olhar que diz, “tens de passar, porque é o teu direito, e eu estarei aqui parado até que passes, porque é o meu dever”. Já atravessei uma rua que não ia atravessar só porque um carro parou para que eu fizesse. Não quero criar tensões sociais no Québec, que para isso já lhes chegam os outros canadianos.
Chateia-me que os carros não tenham matrículas à frente, porque me obriga a ir atrás do Uber verificar a matrícula, ou então entrar no primeiro carro que pare junto a mim. As matrículas do Québec têm inscrita famosamente a frase, “je me souviens” – eu lembro-me. Pois, podem lembrar, mas se tivessem a matrícula também no pára-choques da frente, era mais fácil para quem não a sabe.
O Québec é tão francófono que os sinais de STOP, que até em França são “stop”, têm escrito “arrêt”. Numa cidade mais pequena como Trois-Rivières, só se ouve francês. O único inglês que ouço é o que algumas pessoas simpaticamente utilizam comigo para pequenos diálogos mais elaborados, para os quais o meu francês rudimentar e enferrujado não é suficiente. Quando me dirijo a alguém, pergunto respeitosamente: “English or mauvais français?” Como não apreciam quem lhes estrague o idioma que tanto fazem para preservar, preferem que abastardemos o inglês dos outros. Fazem bem. Assim, nunca se esquecem.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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