Bilhete Postal de Diogo Cabrita: Entre autores no tempo das aplicações

Escrito por Diogo Cabrita

O “capitalismo de vigilância”, como lhe chama Shoshana Zuboff (EUA, 1951- ), tomou conta das redes onde se espraia incauta a mocidade incompleta. O eu vende-se num trabalho imaterial que alimenta algoritmos.
Tudo é agora observação, postagens, num consumo de hoje e ontem misturados.
Deixamos de nos relacionar com um sujeito real e passamos a “consumir” o perfil desse sujeito. O outro é esvaziado da sua alteridade e reduzido a uma mercadoria visual concebida para nos entreter ou agradar, conforme explica Reynner Franco (Venezuela 1973 – ).
Empresas famintas, donas das utilizações, das postagens, contabilizando apoios, absorvem estas vidas online, apropriam-se e moldam estas personagens virtuais – alter egos, “influencers”, existências digitais, convertendo-as em alvos aprisionados. A prisão é construída pelas aplicações que utilizam uma apertada redução de escolhas, com base nas preferências detetadas.
O espetáculo da vida privada, em confronto com a proteção de dados, reforça o mercantilismo da intimidade, desconecta o real com o administrativo, o burocrático, o moralismo racional e tenta desligar o facto do discurso. Se as vidas reais são diferentes das virtuais, o mundo legislativo é completamente inadequado à realidade.
A vida das plataformas digitais é uma exposição humana para colher atenção – a sociedade da curiosidade, a existência da perversão de audiências a qualquer preço. A infocracia de Byung-Chul Han (Coreia do Sul, 1959 – ) é a substituição da verdade pela informação rápida, sem verificação, carregada de emoção, porque é opinada por gente que se descobre livre, ilimitada na rede social. Na realidade vivem o mercantilismo do eu, aprisionados por aplicações predadoras.

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Diogo Cabrita

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