Amanhã, 1 de julho, Olivia de Havilland fará 100 anos de vida. É caso para dizer que é a única de todo o gigante elenco de “Gone With The Wind” que o “vento” ainda não levou (e provavelmente de toda a equipa envolvida). Considero triste que esta atriz não seja tão lembrada quanto Bette Davis ou Joan Crawford. É das melhores atrizes da era clássica, além de que ganhou dois óscares como a maioria das GRANDES: Davis, Bergman, Taylor. A par disso, ela é, para mim, aquela que, juntamente com Davis, melhor carreira possui: “The Heiress” (uma obra-prima), “To Each His Own”, “Hold Back The Dawn”, etc. Porém, infelizmente, os seus títulos mais lembrados são o já citado “Wind” e “The Adventures of Robin Wood”, nos quais a doce Olivia não é a principal protagonista. Julgo que o facto de não ter uma presença tão forte, exuberante, na tela quanto Davis ou Hepburn, além da sua vida privada ter sido muito mais discreta, não lhe possibilitou uma iconografia tão forte. O seu próprio rosto, belo mas não deslumbrante nem exótico, colocam-na no papel de alguém que corre o risco de passar ao lado.
O trajeto de Olivia como atriz, e como pessoa, é impressionante: nasceu em Tóquio; começou a sua carreira de atriz por acaso, tornando-se uma das novas promessas da Warner Bros., o estúdio com o qual assinou um contrato de sete anos; foi parceira de Errol Flynn em fabulosos filmes de aventuras, fazendo um papel que lhe caía muito bem mas ao qual ela não achava muita graça – a típica donzela em perigo; fez o papel de Melanie Hamilton em “Wind” porque, segundo alguns, a sua irmã Joan Fontaine recusou encarnar tal personagem. Sim, a inesquecível protagonista de Rebecca era sua irmã mais nova. Famosa é a rivalidade entre as duas, desde as birras de infância, passando pela noite dos Óscares de 1942, na qual as duas eram candidatas, vencendo, qual injustiça, Joan, até ao facto de se dizer que a longevidade das duas se ter devido ao desejo de nenhuma querer ser a primeira a morrer.
Além de uma grande atriz, Olivia era uma notável entendida face a questões legais. A atriz estava, como qualquer ator de Hollywood, integrada no chamado sistema de estúdios, o que significa que tinha de fazer os filmes que, no seu caso, a Warner quisesse. Saturada de interpretar jovens doces, Olivia passou a recusar os papéis que lhe eram dados, valendo-lhe uma suspensão de seis meses. Não podendo trabalhar durante esse tempo com outro estúdio, Olivia teve de esperar “sentada” para voltar ao trabalho. Supostamente, o seu contrato de sete anos estaria cumprido depois desse tempo de suspensão. No entanto, a atriz deparou-se com a terrível notícia de que ainda teria de trabalhar para a Warner por seis meses de forma a compensar o tempo do seu castigo. Considerando isso injusto, a atriz abriu um processo contra o estúdio… e ganhou! A partir daí os atores passaram a ter maior liberdade profissional. Existe, de facto, a Lei De Havilland que defende que o contrato de trabalho de um ator deve durar o máximo de sete anos, incluindo qualquer tempo de suspensão. A partir do momento em que se livrou da Warner, a carreira de Olivia virou magistral no que toca a performances.
Felizmente que Olivia ainda está entre nós para nos recordar a maravilhosa época que viveu como atriz, coisa que a própria faz tão bem nas suas entrevistas, nas quais parece narrar uma história de tempos mágicos e distantes (de facto, os tempos do velho Hollywood assim foram).
Miguel Moreira*
* Autor do blogue “Ziegfeld Boy”



