Arquivo

Mitos urbanos

Cada povo mandou um colono, dois no máximo. Estavam a mais na pequena comunidade rural, viviam das sobras dos vizinhos, não tinham terra e foram…

Foram como rios… partiam das montanhas e juntavam-se nos vales, num ponto comum como se desaguassem naquele sítio.

Todos diferentes construíram vizinhanças mas não laços comuns. Abriram comércios, padarias e indústrias e parasitaram-se uns aos outros numa relação de desconfiança e inveja necessária. Parasitaram-se mutuamente.

As cidades nasceram!

Foi preciso criar pontos de interesse. Coisas que a todos dissessem respeito. Relações, laços!

Foi por isso que nasceram os mitos urbanos!

Os mitos urbanos (e isto é apenas o que eu penso, não o resultado de pesquisa sociológica, nem sei sequer o que dizem os sociólogos sobre o assunto) são fábulas que aproximam os seres distantes que habitam o mesmo espaço na polis. São constructos fabulosos de origem desconhecida ou cuja origem se confunde na certeza vivida por um primo de uma tia da vizinha de um amigo de alguém…

A verdade é que estes mitos interessam a quase todos e a todos emprestam uma identidade de proximidade, todos os seres da urbe são afetados por eles e todos podem falar deles por serem pontos comuns. Aproximam os distantes!

Os mitos urbanos aparecem e desaparecem ao sabor da evolução das necessidades da urbe. São múltiplos e acompanham-nos sem refletirmos muito sobre eles, mas influenciam-nos na altura certa, no momento em que precisamos.

Localizam-se por vezes em determinado estrato social, nos jovens, nos adultos, nos idosos, ou transversalmente interessam a todos.

Na Guarda, vivi vários já.

Os da minha geração viveram-nos como eu. Quem não se lembra da lenda do Quintal Medroso (solar Teles de Vasconcelos)? Quem não se lembra do homem do saco? Quem não se lembra de ouvir falar da moira encantada?

Ninguém presenciou na pele os efeitos malévolos ou benévolos do mito, mas todos se confortaram falando disso.

Há uns anos nasceu outro mito, sem se saber porquê e sem ser desmentido nunca por quem sabe a certeza, nasceu um mito sem nome em terceira pessoa do plural…

Roubaram a criança da Guarda!

Alguns só souberam que havia uma criança da Guarda depois do mito nascer. Mas havia uma criança da Guarda, era vista de dia e à noite atrás da Sé, num terreno inclinado contíguo à escola de Santa Clara, afável de dia, quase fantasmagórica à noite, a criança ali estava, abracei-me a ela de dia nos primeiros anos de liceu, nos últimos, conversei de noite em grupo à volta dela. Julgo até ter desabafado com ela em boémias noites, abraçando-a, reguei-a com lágrimas de amores não correspondidos de adolescente, sustentou-me passos cambaleantes de rapaz que faz da noite companheira e da cerveja expiação e desculpa.

Tantos como eu o devem ter feito, sem medo da sua quase fantasmagórica existência ao luar.

Essa criança nunca cresceu, ficou igual ao dia em que ali apareceu vinda não se sabe de onde. Há cerca de uma dezena de anos a criança desapareceu misteriosamente. Foi-se! Enquanto foi vista ninguém a comentou, depois notaram-lhe a ausência. Os pasquins locais falaram disso, as pessoas também! Roubaram a criança da Guarda!

Dito assim, era um mistério… Dito assim, tornou-se mito.

Quem roubou? Qual criança? Porque foi roubada uma criança?

O mito ganhou vida e a Guarda perdeu a sua criança. Este mito nada objetivo mas muito etéreo, criou, como é próprio dos mitos, uma insubstantiva insegurança, um medo vago e difuso, uma mágica obscura e transversal a pais e filhos, a avós e netos. O mito incorporou relações de interesse porque a todos afetou.

Depois, como os outros mitos, desapareceu aos poucos com o renovar das gerações e das paisagens da cidade. No lugar da criança há agora lajes graníticas e árvores. Tornei-me crescido, casei e fui pai de uma criança que também me cria sonhos e um dia me amparará os passos. Como eu, muitos outros. A criança roubada foi substituída por outros sonhos… outros mitos!

Um dia destes, no entanto, sem o procurar, o mito voltou. Reencontrei a criança da minha infância e juventude, reencontrei a criança da Guarda. A mesma pose, o mesmo olhar, mas sem áurea, sem mística, sem vida!

Olhei-a de frente e falei com ela, segredou-me em palavras metálicas que nunca foi roubada!

Encontrei-a de pé na mesma posição em que sempre a vi, agora sem as sombras que a Catedral lhe emprestava, sozinha num armazém da Câmara, com o mesmo fato de oxidado azinhavre verde como é próprio das estátuas!

Sim, a criança da Guarda é uma estátua e existe! Espero que alguém a coloque num lugar da cidade onde possa viver da vida que lhe empresta quem passa e ela empreste sonhos aos passantes.

Talvez nos inspire, talvez nos faça deter o passo nervoso de vidas presentes feitas de medos futuros. Talvez nos ajude a acreditar de novo. É apenas uma criança! Proponho o Parque da Saúde, é lá que se encontra a Maternidade da Guarda, agora que se desvanece o mito encaremos o real e o real é que na nossa maternidade também têm nascido outras crianças, não de bronze mas de vida! Será símbolo o reaparecimento da criança da Guarda? Quererá dizer que podemos sonhar continuar a ser o principal berçário das Beiras? Ou estaremos a criar apenas um novo mito?

Nota aos leitores: A Criança da Guarda é um monumento da autoria de Alberto Carreto, cuja colocação se iniciou em 1974 com a instalação de um pedestal granítico onde alguns anos depois foi colocada a estátua de bronze. Monumento de arte contemporânea figurativa, representa uma criança que caminha enquanto transporta junto ao peito uma ave. Obra dedicado à criança da Guarda, encontrava-se colocada no Largo Dr. Amândio Paul, tendo sido retirada do local com as intervenções na área promovidas pelo programa Polis. Presentemente, encontra-se guardada no edifício principal do parque municipal da Guarda.

Por: Júlio Salvador

Sobre o autor

Deixe comentário