O ano que há pouco começou vai finalmente ser aquele por que há tanto esperávamos e será desta que irão acabar de vez os incêndios florestais graças à ação previdente do Estado e à atitude a todos os títulos responsável dos cidadãos em geral, doravante prontos a cooperarem sem hesitações em prol do bem comum. Os próprios autarcas da oposição irão para as matas com roçadouras e os do poder não lhes chamarão populistas.
Será o ano em que acabará a penalização do interior. Os autocarros para o litoral andarão às moscas. O centralismo será exterminado, bem como a sua reprodução dentro de cada município. Haverá justiça e a pobreza será erradicada. Todo o dinheiro dos impostos será bem empregue e a Beira Interior poderá mesmo ser declarada zona isenta de crime fiscal e um exemplo para o país.
O povo português não deitará mais lixo para o chão nem estacionará em segunda fila. Os automobilistas circularão sempre com um sorriso na cara e palavras doces nos lábios. Nos cafés, não se falará levianamente da vida alheia, a não ser para elogiar. Nas escolas, não haverá praxes maldosas nem jovens a aceitarem rastejar em nome da coesão académica e erguerão, isso sim, bem alto a sua voz “pelo direito à crítica e à liberdade”. Todos os professores dedicarão à intervenção cívica uma generosa parte do seu tempo, finalmente livre de trabalho burocrático.
Nunca mais um marido baterá na mulher. Nenhuma família abandonará um cão ou uma tartaruga. O pessoal da bola ensinará ao público as virtudes de saber perder e este retribuirá arremessando rosas aos árbitros. As redes sociais não servirão mais para vaidades fúteis. Os cronistas de jornal deixarão de fazer moralismo. Toda a gente conversará de olhos nos olhos e os telemóveis ficarão no bolso na noite Natal.
Donald Trump virá à Guarda estudar medidas para o arrefecimento global. Será um ano quase perfeito. Mas, se falhar, outro se seguirá.
José Ricardo Carvalheiro*
* Professor universitário (UBI)


