P – Quais são as grandes opções para os próximos quatro anos em Manteigas?
R – Pretendemos retomar o processo de 2009 a 2013, baseado na valorização e na promoção do território.
P – No último mandato não se apostou nesses vetores?
R – Não houve foi a aposta necessária. Em 2010 iniciámos um processo de valorização do território bastante intenso com a candidatura do Vale Glaciar às “7 Maravilhas de Portugal”. Fizemos o Centro Interpretativo do Vale Glaciar, projetámos o Centro de Energias Renováveis, que curiosamente ainda não está terminado, requalificámos espaços urbanos, repavimentamos ruas e caminhos para promover ainda mais o concelho e projetámos mais um sem número de ações que ficaram por tratar. Adquirimos também antigas fábricas têxteis e ali instalámos algumas empresas com criação efetiva de postos de trabalho. Uma delas – a Trend Burel – criou dezenas de postos de trabalho e, além da Câmara, é a maior empregadora de Manteigas. Recuperámos outro pavilhão para Ninho de Empresas para se fixarem empresas criadas por alunos da UBI e IPG no início da sua atividade profissional. Houve um conjunto de projetos para valorizar e promover o território, criando ao mesmo tempo emprego. Estas são áreas que queremos continuar a trabalhar.
P – Mas o Ninho de Empresas está ou não vazio?
R – Não tem absolutamente nada quando, na altura, tínhamos a perspetiva de instalação de duas microempresas. Mas nada foi feito. Já na antiga Sotave há muitas áreas ocupadas, mas sem criação de postos de trabalho porque foram cedidos espaços para armazéns privados e para sediar empresas que já laboravam em Manteigas. O problema é que neste momento perspetiva-se a instalação de uma empresa e receio que não tenhamos ali área suficientemente grande para a acolher porque os melhores espaços estão ocupados.
P – O que pode adiantar sobre essa empresa?
R – Nada, pois há coisas que só temos de revelar nos momentos certos. É uma empresa de alguma dimensão, ligada aos recursos naturais do concelho, e oxalá que dentro de algum tempo já haja certeza de que virá para Manteigas.
P – Qual é a sua estratégia para conseguir criar postos de trabalho, que disse ser a principal carência do concelho?
R – Deve- se recuperar a dinâmica que trazíamos de 2009 até 2013 que fez com que se criassem efetivamente postos de trabalho. Queremos trazer empresas para esse complexo industrial, onde há ainda alguns espaços vazios. Algumas delas já podiam lá estar não fosse a forma de condicionamento da anterior Câmara, há inclusivamente um litígio judicial entre a autarquia e uma empresa porque não se instalou. Pretendemos também atrair empresas que trabalhem o potencial natural do concelho e o turismo de natureza. Manteigas está totalmente inserida no Parque Natural da Serra da Estrela e tem vantagens fantásticas das suas belezas naturais, mas o seu Plano de Ordenamento gera constrangimentos enormes quanto à localização de indústria. Por isso, temos que ter compensações financeiras – que queremos debater com a respetiva tutela governamental –, e majoração dos financiamentos que eventualmente estejam disponíveis para investir neste território.
P – A vila vai ter novos hotéis. Como está a acompanhar os investidores?
R – Em Manteigas enche-se a boca, e muito bem, com a construção de quatro hóteis. Quando deixei de ser presidente da Câmara um deles já estava licenciado e depois foi vendida a Pousada de São Lourenço, que está em obras para hotel de 5 estrelas e estará em condições de abrir em 2018. O mesmo acontecendo com as outras duas unidades em construção na zona urbana e isso é extraordinário para Manteigas. O grupo Vila Galé tem outro projeto e espero que tenha rapidamente todos os pareceres favoráveis para que a obra possa arrancar em 2018. Mas isto não é fruto do acaso, aconteceu porque houve dinâmicas anteriores de promoção do território.
P – Está a dizer que se não fosse esse protagonismo no seu mandato anterior estes projetos não teriam surgido agora?
R – Não diria que não teriam, mas certamente que não estariam a acontecer agora e não teriam surgido em número tão considerável porque a dinâmica de promoção do território nos últimos quatro anos foi absolutamente invisível. Esse protagonismo no meu mandato foi naturalmente um contributo essencial para que Manteigas fosse conhecida no país e no estrangeiro, não tenho dúvida nenhuma.
P – Mas há mais capacidade para outras unidades hoteleiras no concelho?
R – Tenho esperança que quando estes hotéis estiveram construídos novos operadores virão reconhecer a possibilidade de investirem aqui na área da hotelaria, da restauração e até do turismo de natureza.
P – O que vai fazer na área do turismo, um setor fundamental para desenvolver Manteigas?
R – É estranho que a Câmara não tenha um gabinete de turismo com trabalho na afirmação turística do concelho. Nós vamos criá-lo porque os produtos não se promovem por acaso. Já estamos a avaliar a possibilidade, com outras Câmaras da região, de identificar os produtos turísticos endógenos para criar pacotes que possam ser vendidos em conjunto. Não conseguimos vender o território sozinhos se Belmonte não vender os seus museus ou se a Covilhã e o Fundão não venderem os seus atrativos. Trata-se de criar mais atratividade porque é isso que necessitam os operadores económicos que se estão a instalar em Manteigas.
P – Olhando para o mandato anterior, o que correu menos bem que é preciso ser corrigido e quais são ainda as fragilidades a corrigir nos próximos tempos para dinamizar o concelho?
R – Ser autarca em Manteigas não é inventar. Quem concorre neste concelho tem objetivos comuns aos outros candidatos, não há grande diferença entre os projetos, mas sim na dinâmica, na forma e na estratégia. E é essa dinâmica que está em causa, que queremos implementar novamente. Temos agora mais urgência, pois o concelho tem-se esvaziado de jovens, de população nestes últimos anos e está cada vez mais envelhecido. Há projetos que deixamos em curso que o anterior executivo continou, alguns terminou, outros não e temos que concluir. Por exemplo, o Centro Interpretativo de Energias Renováveis iniciou-se há uns anos, o anterior executivo conseguiu agora financiamento para a última fase, pelo que é preciso olhar um pouco mais para o projeto, para as suas valências e fazer pequenos ajustes para o adaptar às mudanças que ocorreram entretanto.
P – Já sabe como está a autarquia em termos financeiros e de projetos?
R – Estamos a apurar. Não é ainda momento para falar disso porque do “estado da arte” tem que ser dado primeiro conhecimento ao executivo e aos deputados municipais. Houve algumas surpresas menos boas, mas não é nada que não se consiga ultrapassar, certamente com mais restrições nos próximos orçamentos, nomeadamente no de 2018. Ter um orçamento com quase 2 milhões de euros já comprometidos não deixa muita margem de manobra. Mas vamos tentar, se não é no primeiro ano será no segundo. Há projetos em curso e alguns deles com candidaturas aprovadas e outros que vamos candidatar aos fundos comunitários para resolver a questão da despesa. Nem tudo é mau. Se eu faria diferente, claro que sim.
P – Como está o entendimento no seio do executivo?
R – Olhe, não há desentendimento. Estou convicto que quem está no executivo tem as mesmas intenções e quer o desenvolvimento do concelho. Cada um tem a sua responsabilidade, eu fui inequivocamente eleito presidente de Câmara, portanto o presidente sou eu. É verdade que há questões que têm que ser decididas na Câmara, mas outras são-no por despacho do presidente ou por quem o substitua. E nessa perspetiva tudo se irá resolver em termos de gestão da Câmara. A primeira coisa que fiz foi tentar criar uma maioria mais consolidada e distribuir pelouros ao vereador independente, que não aceitou. Achou que devia continuar independente até ao final do mandato, é uma decisão que respeito. Já ouvi declaração expressa da oposição de que não estarão para criar atropelos, nem para obstaculizar. De resto, na última reunião de Câmara convidei os eleitos da oposição a apresentarem propostas para o orçamento. Ainda não tenho nenhuma, mas estou em querer que as vão apresentar e que vamos aprovar o orçamento e o plano de atividades em conjunto.
P – Portanto, não tem um “aliado” na oposição para as situações mais problemáticas que o executivo tenha que aprovar?
R – Eu diria que não tenho nenhum adversário só pela adversidade e que contrarie qualquer projeto de desenvolvimento económico e social de Manteigas. Não tenho esse receio porque acho que todos somos de boa-fé e ninguém quer cometer a heresia de travar o desenvolvimento do concelho. Quem porventura criar obstáculos terá que ficar com os prejuízos. Mas acho que estamos todos conscientes do que é preciso fazer por Manteigas.
P – Pelas suas palavras, espera um mandato tranquilo?
R – Não, espero um mandato com todas as contigências que qualquer mandato tem, com maioria absoluta ou maioria relativa. Isto não é mel de abelha. As pessoas conhecem-me, sou vontade, trabalho, muita dedicacação, muita perseverança, muita responsabilidade e muito rigor. São caraterísticas que me identificam para ultrapassar qualquer problema que se coloque.
P – Como explica a eleição de Novo de Matos (CDU) na presidência da Assembleia Municipal?
R – A democracia tem destas coisas (risos).
P – E o surgimento de uma candidatura independente? É um sinal para os dois candidatos que têm vindo a alternar na Câmara de que as pessoas estão fartas desses duelos?
R – As pessoas não estão cansadas dos nomes, mas da política em geral, dos partidos e de quem os enforma. Este ano apareceu um candidato independente em Manteigas mas que não estava completamente desligado de uma determinada área política. É uma situação que vejo com naturalidade e parece-me que se manterá independente, oxalá que sim.
P – Vai defender que a sede do futuro Geopark Serra da Estrela fique em Manteigas?
R – Com certeza que sim. Vou reunir com a direção da associação em dezembro e quero reiterar a posição de Manteigas, já marcada pelo anterior executivo. Nós queremos a sede porque Manteigas tem os geosítios mais importantes e em maior número do futuro Geopark. Depois também porque o concelho está no centro do Geopark. Se Manteigas não fizesse parte desta associação não havia Geopark Estrela, e isso é argumento mais que suficiente para defender a sede.
P – Continua a insistir na construção dos túneis da Serra da Estrela. Essa oportunidade não se perdeu já?
R – Penso que não. Os túneis devem ser defendidos com argumentação sustentada, não pode ser uma defesa bacoca como eventualmente foi feito há uns anos. Nessa altura alguns autarcas defendiam o IC6, outros diziam que os túneis não se deviam construir porque ficavam periféricos a esta ligação rodoviária, e a defesa que foi feita foi pouco sustentada. Também se invocaram os custos do projeto, mas o túnel do Marão foi construído e já está pago. Não queremos túneis que não sejam portajados numa primeira fase para recuperar os custos dessa construção. Há estudos concretos que concluem que os túneis podem e devem ser feitos, mas o projeto deve ser defendido não só por Manteigas, como também pelas comunidades intermunicipais das Beiras e Serra da Estrela, da Beira Baixa e a região de Viseu. É que os movimentos pendulares de pessoas e bens entre estas duas economias ficam muito mais onorados com o trânsito como está neste momento, ou pelo norte da Guarda ou pelo sul da Covilhã. Vou tentar que alguém faça os estudos necessários – Manteigas não tem dinheiro para isso – para apurar a mais-valia desta obra.
P – Está satisfeito com a ligação à A23?
R – Não. É verdade que se fez um bom trabalho na ligação do Ginjal (Belmonte) a Valhelhas e Manteigas. Mas merecemos outra ligação, uma que estava pensada entre a A23, Gonçalo e Valhelhas. Era a mais direta, mas o projeto foi abandonado. O que me preocupa mais neste momento é a EN338, entre a vila e os Piornos. Com a porcaria de beneficiação que fizeram a estrada não tem condições de segurança e está hoje pior do que há três anos. E não acredito que depois de terem gasto um milhão de euros se volte a investir ali outra vez. É ai que eu bato na necessidade dos túneis.
P – O Governo mudou a sede do Infarmed para o Porto. O que gostaria de ter em Manteigas?
R – Gostaria de ter aqui o Infarmed (risos)… O que gostaria mesmo era ter novamente a administração florestal que Manteigas já teve e com as mesmas dinâmicas – saíram daqui diretivas para a floresta do resto do país! Também gostaria de ter a sede do Parque Natural da Serra da Estrela em pleno, com a direção e os serviços técnicos, não apenas uma delegação. Não é pedir muito.
Perfil:
Esmeraldo Carvalhinho, de 63 anos, não precisa de apresentações. Dirigente e militante histórico do PS na Guarda, nasceu em Manteigas mas reside e trabalhou grande parte da vida na cidade mais alta.
Foi funcionário da Câmara e dirigente do SINTAP (Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública e de Entidades com Fins Públicos) entre 1987 e 1992. No ano seguinte foi eleito vereador, tendo permanecido no executivo até 2005, onde também assumiu a vice-presidência. «Saí da Guarda quando percebi que tinha condições para ser candidato na minha terra natal e trabalhar pelo seu desenvolvimento», refere. Mas na primeira tentativa perdeu a presidência da Câmara por um voto e ainda hoje esboça um sorriso amarelo quando fala desse «resultado inédito» em autárquicas.
Em 2009 foi a sua vez de ganhar «com alguma vantagem», mas nas autárquicas seguintes voltou a perder «e agora cá estou novamente». Esmeraldo Carvalhinho está aposentado, tem dois filhos, um rapaz e uma rapariga, mas ainda não tem netos, «infelizmente», desabafa. Gosta muito de pesca e de estar com a família, mas as suas funções autárquicas não lhe deixam muito tempo. Outro passatempo é «conviver com os amigos, conhecer pessoas e viajar. Infelizmente não tenho é dinheiro para viajar tanto quanto gostaria», lamenta.
Ainda é presidente – «não por muito tempo – do Grupo Desportivo e Recreativo das Lameirinhas, a IPSS do bairro guardense onde reside, foi dirigente do clube de futebol do Mileu e de várias associações de desenvolvimento local, como a Pró-Raia e da extinta Estrela Côa. Diz que não é político de carreira: «É apenas uma ocupação temporária», responde, pois antes de ser autarca foi desenhador de construção civil e funcionário da Solavra, empresa de maquinaria agrícola. «A partir de determinado momento dediquei-me à vida autárquica porque as pessoas que me rodeavam assim o quiseram. Cheguei a presidente de Câmara, mas não foi um objetivo meu. As coisas aconteceram, foram fruto das circunstâncias», afirma o autarca de Manteigas.
Esmeraldo Carvalhinho já não tem ambições políticas e não será candidato à Federação do PS da Guarda. «O meu tempo já passou», assume, dizendo-se desiludido com o estado atual do partido no distrito. «Só se dá a volta com novos atores com alguma ambição, mas que não seja desmedida», adverte o militante desde os 20 anos, para quem o partido «foi oxidando e, através do funcionamento das estruturas distritais, foi oxidando a relação com os cidadãos. Deixou de ter intervenção pública. Parece que vive dentro de um casulo que não tem porta de saída, só de entrada».



