Há lugares-comuns repetidos tantas vezes que deixa de se questionar a sua validade, por cansaço, por preguiça, ou porque ascenderam pela repetição à categoria de provérbios. Diz-se, por exemplo que o Benfica era o clube do fascismo, assim como se diz em Espanha que o Real Madrid era o clube do franquismo. Com isto insinua-se, quando se não diz com todas as letras, que a não ser o fascismo, ou o franquismo, esses clubes se não teriam destacado nos seus países (e na Europa). Os outros, em Espanha o Barcelona e em Portugal o Sporting e o Porto, seriam os resistentes antifascistas, as vítimas dos verdugos da ditadura.
A tese é sedutora, principalmente para quem se habituou durante décadas à subalternidade e teve de engolir sucessivas derrotas e humilhações. Agora há uma explicação: “eles ganhavam porque tinham a PIDE por detrás, porque o regime os apoiava; agora, que “a mama” acabou, vejam o resultado…”
Pena que os factos não ajudem, que a tese não resista ao confronto com a realidade. Américo Tomás, para começar, era adepto confesso do Belenenses. Ao Salazar, por sua vez, não se lhe conheciam quaisquer simpatias futebolísticas. O mito poderá ter começado com uma final da taça de Portugal entre o Benfica e a Académica, transformado pelos estudantes numa jornada de desafio à ditadura. Mas essa jornada de luta aconteceria também, como é óbvio, se o outro finalista fosse o Sporting.
Não há registo de a PIDE ameaçar árbitros, ou de o regime subsidiar o Benfica em detrimento dos outros clubes, ou de interferir de alguma forma nos campeonatos. E se a transferência do Eusébio para Itália foi proibida, essa proibição foi tanto em prejuízo do jogador como do seu clube, que não encaixou as verbas que o negócio envolveria. Já agora, falando no Eusébio, se o Sporting o perdeu para o Benfica foi pela sua tradicional “habilidade” em perder grandes jogadores a custo zero, como por exemplo Paulo Futre e Luís Figo. Para além disso, se o regime se encostou ao Benfica, retirando dividendos dos seus sucessos no estrangeiro, que culpa tem este? Tivesse o Porto a dimensão que começou a ter nos finais dos anos 80 e seria ele hoje o caluniado (como o poderia ser o Sporting do tempo dos cinco violinos … se tivesse ganho alguma coisa na Europa).
Outros factos desagradáveis têm a ver com os resultados pós 25 de Abril. O Benfica, depois da revolução, ganhou ainda três campeonatos na década de 70 (74/75, 75/76, 76/77), num total de seis; dominou a década de 80, ganhando cinco campeonatos; ganhou dois na década de 90, antes do grande descalabro e da grande travessia do deserto. Isto para não falar nas oito taças de Portugal, nas três taças Cândido de Oliveira e nas três finais europeias.
Mais desagradável ainda, sobre estas coisas de democracia, é a verificação de que o Benfica é o único clube em que há eleições a sério. Já agora, alguém se lembra do nome do candidato derrotado nas últimas eleições que houve no Sporting? E no Porto? E no Boavista? E nos outros todos? Custa-me dizê-lo, mas há um clube em Portugal com um regime (quase) parecido ao de uma democracia e nos outros, os supostamente democratas e antifascistas, temos algo mais parecido com o que se passa na Coreia do Norte. Talvez seja esse o segredo do sucesso.
Por: António Ferreira


