1. As eleições autárquicas decorreram há pouco mais de 100 dias. Por todo o lado, os novos autarcas “pediram” os primeiros meses para analisar a realidade e perspetivarem as melhores soluções. Não basta ter um programa (os que o tinham!) para implementar e definir as melhores opções para os concelhos, é preciso conhecer os cantos à casa, fazer o diagnóstico, interpretar o contexto, decifrar os problemas, analisar a realidade social e financeira, saber tratar com os colaboradores e determinar prioridades. Supostamente é isso, ou é essencialmente isso, que tem sido feito um pouco por todo o lado… Agora, é tempo de atuar, de passar da emergência do conhecimento para a urgência da execução. As populações, em especial as do interior, estão ansiosas e necessitadas de mudanças. Não há tempo para contemplações, é tempo de exigir, porque o tempo passa depressa.
2. Uma das promessas eleitorais mais prementes de Álvaro Amaro foi a de retirar os camiões da cidade. Qualquer pessoa que chegue à Guarda fica estupefacta com a presença de tantas viaturas pesadas estacionadas nos bairros da cidade, em especial ao fim-de-semana. As zonas residenciais, supostamente calmas e ocupadas por carros familiares, motociclos ou bicicletas, foram invadidas na última década por camiões perante a impotência dos residentes. A autarquia, apesar das muitas cíticas e reclamações nada fez ao longo de anos e as noites de descanso de muitos guardenses passaram a ser constantemente ameaçadas pelo ruído ininterrupto dos motores de refrigeração dos reboques-frigorifico ou dos motores potentes dos tratores que chegam e partem a qualquer hora do dia ou da noite – por considerarem que têm todo o direito a estacionar e pernoitar nos bairros onde os motoristas residem. Não têm! As regras são claras, mas difíceis de fazer cumprir (há meia-dúzia de anos, e depois de neste jornal terem sido denunciadas várias situações inacreditáveis de estacionamento em determinada vias, a PSP multou muitos, sem no entanto conseguir o abandono do aparcamento irregular, até porque, para alguns infratores, era mais seguro e barato pagar a coima do que estacionar longe de casa…).
A pasmaceira na Câmara da Guarda parece ter chegado ao fim. Depois de anos de complacência, o novo executivo aprovou um projeto de estacionamento na PLIE. Não é um plano estruturante para o desenvolvimento da cidade, mas é o princípio da resolução de um problema para as pessoas, para a sua segurança e conforto, para a tranquilidade dos bairros e aprazibilidade das ruas da cidade (que estão em muitos lugares esburacadas pela passagem regular de camiões). Não será fácil levar todos os transportadores para fora da cidade, e será necessário investir na qualificação do estacionamento na PLIE, nomeadamente em segurança e transportes de ligação à cidade, mas finalmente a Câmara da Guarda tem um projeto para resolver um problema de urbanidade e civilidade.
3. O novo presidente da Câmara da Covilhã convidou os jornalistas da região para um encontro onde apresentou um balanço dos primeiros cem dias do executivo. Realçou alguns pontos da herança de Carlos Pinto e apontou o caminho para os novos desafios a que se propõe. Para lá da qualificação urbana, do apoio social, da disponibilidade para apoiar alguns projetos empresariais (alvitrou que, em breve, uma nova empresa criará 100 postos de trabalho) e da convicção de que o Turismo terá cada vez maior relevância na vida económica e social da cidade (quer incluir a Covilhã nas principais rotas de judiarias), Vítor Pereira quer apostar de forma diferenciada na Cultura – o verdadeiro busílis da cidade durantes os mandatos do antecessor. A Covilhã que se quer cada vez mais cosmopolita, cuja universidade é um verdadeiro catalisador de dinâmicas, energia e conhecimento, não tem uma agenda cultural, não tem equipamentos culturais de qualidade, polivalentes e modernos, não tem espetáculos de referência e nivelou por baixo a sua animação cultural. Não será um caminho fácil, e menos ainda em tempos de austeridade, mas nem só de pão vive o homem e uma urbe sem cultura será sempre uma pobre cidade de província – e poderá aproveitar o ciclo pouco ambicioso proposto na Guarda se conseguir apresentar um programa com qualidade e critério.
Luis Baptista-Martins


