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«O jornalismo pode ter um contributo absolutamente essencial no interior para a coesão social e regional»

Fernando Paulouro Neves foi jornalista, chefe de redação e diretor do Jornal do Fundão. Deixou a direção daquele semanário em janeiro, devido a divergências com a administração, e desde então tem dedicado parte do tempo a duas das suas grandes paixões: a escrita e a intervenção cívica em defesa dos interesses da região. Foi eleito recentemente como um dos membros externos cooptados para o Conselho Geral da Universidade da Beira Interior e considera que a instituição pode ser um um motor de integração regional.

P – Como vê o país neste período difícil de crise?

R – É impossível hoje ver o país com lentes cor-de-rosa. O país está numa situação dramática até no ponto de vista do que é o alimento principal do país como entidade coletiva que é a esperança. Podemos dizer que assassinaram a esperança. Encontramos gerações mais velhas e outras mais novas, todas elas com um denominador comum de desespero e uma ausência brutal de horizontes. Todos os dias vemos o país refém de uma situação em que aumenta a pobreza e os direitos sociais são completamente estrangulados, de forma a que o próprio futuro seja uma incerteza completa. O desemprego em termos gerais é brutal e num país assim temos de viver um sentimento de pessimismo brutal. Apesar de tudo, acredito que os portugueses não estão mortos civicamente e que vão reagir e exigir mudanças mas articulando esse desejo também com a exigência de uma Europa pensada de forma diferente porque senão a única coisa que podemos viver é um bocado a morte a prazo. Penso até que, face às políticas que se desenham, hoje tolera-se uma espécie de escravatura estilizada porque se fala tanto que a competitividade reside fundamentalmente na redução de direitos e na desvalorização do trabalho quando os salários já são baixos.

P – Ainda pode haver espaço para o sonho?

R – Há sempre espaço para o sonho porque a história portuguesa é muito dramática e a cidadania foi sempre pouco reconhecida. Fomos um povo de súbditos sobretudo sem direitos. Ao longo da história os hiatos em que houve liberdade plena são muito pequenos. Porventura é nessa circunstância que reside o diagnóstico que José Gil fez com Portugal e os medos que existem e por isso assistimos hoje na política a uma chantagem permanente.

P – Esse é um diagnóstico que foi feito antes de chegarmos a este período da não esperança…

R – O jornalista espanhol Joaquin Estefania escreveu um livro onde diz que se instituiu na Europa uma economia do medo que tem muito como génese a chantagem que os políticos exercem sobre os povos. Todos eles, estando a crucificar-nos, dizem que se não for assim a crucificação ainda pode ser pior. Estimulam um grau de insegurança que é absolutamente fatal depois no comportamento das pessoas. Hoje as pessoas têm medo de perder o emprego, a reforma, a possibilidade de ir a um hospital e ser tratadas. Desenha-se uma sociedade muito esvaziada de todas as conquistas que apenas tentavam possibilitar uma espécie de felicidade mínima às pessoas.

P – O que podemos fazer agora?

R – Este tipo de situações tem sempre uma relação direta com o exercício dos direitos democráticos. As políticas não são eternas, a realidade tem sempre muito mais razão que a ficção política e têm que haver sempre outros caminhos para Portugal e para a Europa. As medidas que têm sido impostas aos países constituem uma direção em que não se resolvem mas agravam-se os problemas. Estamos a instituir em todo o espaço europeu uma selva em que os direitos das pessoas são cada vez mais subalternizáveis e isso é gravíssimo.

P – A emigração será mesmo uma das soluções?

R – Durante muitos anos andaram-nos a dizer que era preciso qualificar e Portugal tem sucessos assinaláveis ao nível da investigação científica porque se apostou nessa área e hoje assistimos a um retrocesso total nessas políticas. Quando um primeiro-ministro aconselha os jovens a emigrar há uma patologia na sociedade portuguesa absolutamente fatal porque, como diz Eduardo Lourenço, a emigração é sempre uma aventura de pobre. A nova geração tem uma outra dimensão em termos de acessibilidade à Europa. Hoje há a possibilidade do indivíduo se movimentar no espaço europeu como titular de direitos em plano de igualdade com os outros cidadãos e há aí uma mudança muito grande mas, no fundo, a emigração que se está a processar em Portugal é novamente a aventura de pobre que foi a emigração dos anos 50 e 60.

P – O que mudou na região nas últimas décadas para melhor e para pior?

R – Esta zona como todo o interior sofre o ónus de um país pensado com um risco ao meio em que havia um litoral que se desenvolvia e um interior que era pensado, sobretudo, como um contingente de reserva de mão-de-obra para a emigração ou para as cidades do litoral e as desigualdades que se estabeleceram em Portugal criaram uma situação em muitas regiões insustentável de não retorno social. A Beira Interior é uma região periférica mas dentro do seu território tem depois múltiplas periferias com um índice de subdesenvolvimento ainda muitíssimo grande e algumas de abandono total. Por outro lado, também houve mudanças assinaláveis na Beira Interior. Quando nos dizem que vivemos acima das nossas possibilidades devemos interrogar-nos de qual é o ónus de que a Beira Interior só foi contribuinte para o resto do país porque era uma região absolutamente isolada, quer no plano social, quer no das atividades económicas. A nível da indústria, houve aqui empreendedores notáveis que conseguiram resistir a situações verdadeiramente incríveis de bloqueios porque não havia estradas. Era uma zona perfeitamente isolada no quadro do território. No plano da saúde estávamos completamente dependentes. O direito à saúde era uma coisa que não existia e estávamos dependentes dos hospitais centrais ou de outras regiões onde estavam instaladas especialidades.

P – Quando se diz que nos últimos 20 anos se gastou muito dinheiro em betão, na Beira Interior não será bem assim então?

R – Quer a A25, quer a A23, foram o reconhecimento de um direito porque foi a forma, não só de ligar a região ao país, como também à Europa. Quando se fala nos gastos excessivos, a Europa devia fazer um mea-culpa porque impôs políticas expansionistas e depois castiga os países onde mandou aplicar essas medidas. Há aqui uma contradição de base e essa questão não tem sido suficientemente debatida na sociedade portuguesa. A Beira Interior tem um eixo fundamental que é Castelo Branco-Fundão-Covilhã-Guarda e hoje espantamo-nos porque durante anos e anos as cidades próximas viveram de costas voltadas porque as vias de comunicação eram muito penosas. Hoje estamos todos próximos uns dos outros e talvez isso seja a transformação mais importante. Costumo dizer que os autarcas odeiam-se todos cordialmente porque há uma competição desenfreada entre concelhos. O território dos autarcas é dos votos concelhios e é muito difícil pedir-lhes que sejam eles a cimentar a visão regional das coisas, mas ela é absolutamente indispensável para o desenvolvimento para não se fazerem investimentos inúteis.

P – Entretanto foram introduzidas as portagens na A23 e A25?

R – As portagens são uma coisa absurda numa região tão penalizada do ponto de vista do isolamento e da falta de acessibilidades. Esta região é credora em relação ao Terreiro do Paço pelos anos em que não a desenvolveu na perspetiva da política dominante de o interior ter sempre menos votos. Tinha menos influência em termos políticos e até menos caciques do que noutros lados que conseguiam impor coisas no Terreiro do Paço mesmo antes do 25 de abril. Isto foram territórios absolutamente descartáveis do ponto de vista social, da cultura e da saúde.

P – Como é que se pode contribuir para a coesão regional quando os meios são cada vez menos?

R – Essa é uma batalha fundamental até porque as coesões regional e social estão muito ligadas. Agora, vivemos numa região onde existe um certo atavismo cívico no plano da indignação e as coisas não têm a expressão coletiva que deviam ter. Há investimentos públicos que foram feitos e depois absolutamente sabotados como é o caso da ferrovia na Linha da Beira Baixa e já nem falo da ligação entre a Covilhã e a Guarda. Fazem-se investimentos e depois dá-se um sinal que não é para valer. Mesmo com as portagens não vejo a indignação dos eleitos de tentar discutir isso nos tribunais. As medidas de emergência nacional agora também servem para tudo e em zonas que estavam a construir a tentativa de um desenvolvimento mais sensível institui-se portagens que são as mais caras em termos nacionais. Há aqui qualquer coisa que parece soar a um castigo sobre as populações do interior por terem menos votos.

P – Será que temos políticos que possam representar os interesses da população no sentido de inverter esta tendência ancestral de ficarmos cada vez mais para trás?

R – Essa é uma boa questão. Julgo que a política é, em certo sentido, uma aprendizagem e há políticos que ao longo da permanência no poder aprenderam e têm hoje uma visão das coisas de uma forma mais atualizada e há outros que se limitam à gestão dos assuntos correntes. Isso hoje é fatal e perdeu-se muito tempo com políticas desse tipo ao nível da região, quando tudo era fácil e havia acesso a fundos comunitários. A outra questão é que esses políticos estão numa região onde, quando foi discutida a regionalização, ela foi sabotada pelos interesses dos próprios partidos e a verdade é que a população, sendo sobretudo sensível ao clubismo partidário, disse que não queria regionalização nenhuma. O sinal que se deu é que as pessoas estavam bem sob a dependência do poder central. Isto é uma coisa absurda do ponto de vista dos direitos que uma região deve assumir como capacidade de tomar nas mãos o seu destino.

P – Estão agora a ser criadas as comunidades…

R – E qual é o atraso disso? Uma das coisas mais negativas que acontece na sociedade portuguesa é a descontinuidade das políticas públicas porque basta a política trazer colada a si um emblema de um partido para o outro a meter na gaveta. Isso tem pesos brutais e ao nível local também não há essa continuidade e a região não é pensada em termos de continuidade política, geográfica e pública porque na Beira Interior há mais coisas que nos unem do que o que nos separa e isso não é aproveitado politicamente.

P – A criação da comunidade intermunicipal da Beiras e Serra da Estrela pode ser apenas o afinar de NUTS para ir buscar fundos comunitários?

R – É o meu receio. Tenho um bocado receio deste mapa se ter criado um bocado aleatoriamente até porque estimulam muitas vezes divisões profundas e contenciosos históricos entre concelhos como a Covilhã e Castelo Branco. O problema é que tudo se tem discutido num plano meramente de bairrismo exacerbado. Temos os maiores recursos hídricos do país. A água é hoje um recurso absolutamente determinante, temos alguma coisa que as outras regiões precisam e digo isto, não numa perspetiva de tirar dessa questão uma vantagem para penalizar as outras regiões, mas penso nisso como um cimento fundamental para o que deve ser a subsidiariedade entre regiões e na política em geral não podemos pensar esta região como se fosse do fim do mundo, até porque até está mais próxima ao nível da estrada da Europa.

P – Até que ponto a chegada dos novos autarcas pode contribuir para mudar alguma coisa?

R – Haverá situações em que essa renovação implicará um rejuvenescimento e mudanças de ciclo. Na maior parte dos casos há autarcas que vão herdar uma situação financeira complicada, outros que vão herdar, e cito sempre o caso de Castelo Branco, uma alteração profunda na realidade citadina em termos de equipamentos e que têm uma saúde financeira notável. São condições diferentes.

P – Até que ponto a criação de um grande município entre a Covilhã e o Fundão pode ser um caminho a seguir para o futuro?

R – Isso era importante. Defendi sempre ao longo dos anos que os três polos mais importantes da Cova da Beira tinham uma contiguidade e que era inevitável mais cedo ou mais tarde as pessoas terem uma visão mais comum dos problemas e de cooperação intermunicipal. Há do ponto de vista urbano uma continuidade que a paisagem impõe aos políticos e isso pode ser muito interessante para mostrar que as políticas comuns podem, não só racionalizar as coisas, como conquistar até uma massa critica diferente em relação aos problemas. Julgo que está muito ligado a isso o papel que a Universidade da Beira Interior pode ter. O grande desafio que para mim se impunha é que a Universidade se tornasse verdadeiramente da Beira Interior. Não sei de que forma isso será possível mas é um problema que também se vai pôr das relações com os politécnicos. Os politécnicos foram criados para um ensino mais técnico e depois transformaram-se, de certo modo, em universidades para promover licenciaturas, até com áreas comuns.

P – Como encara o desafio de integrar o Conselho Geral da Universidade da Beira Interior?

R – Encaro de uma forma muito prática. A minha expetativa é que o Conselho Geral possa, para além dos cometimentos burocráticos que lhe estão associados, dar um contributo em termos de pensar a própria universidade na sua articulação com o território e o futuro.

P – Vai promover esse desafio à UBI no sentido da instituição ser um motor de integração regional?

R – Julgo que há consciência disso porque aparentemente isso é consensual. O Conselho Geral pode dar um contributo nessa perspetiva de ajudar a pensar a realidade um pouco fora dos muros da universidade que são muito departamentais e muito virados para o imediato da vida universitária do seu quotidiano. Esse debate ou o aprofundar esse pensamento poderá ser feito com pessoas que estão mais distanciadas.

P – Como vê o estado atual do jornalismo?

R – Estou muito cético em relação ao jornalismo porque é uma paixão absolutamente insuperável o exercício da profissão de jornalista. O jornalismo pode ter um contributo absolutamente essencial no interior para a coesão social e regional. Agora penso que o jornalismo está confrontado com questões absolutamente decisivas e que muitas vezes escapam à capacidade do jornalista. Os que mandam hoje nalgum jornais em termos de administração são pessoas que não têm memória dos próprios jornais que estão a gerir e perdem a noção da razão de ser do jornal no próprio território. Depois há um analfabetismo reinante que subalterniza a cultura claramente como se ela não fizesse parte do que eles consideram o “negócio” e isso tem implicações fundamentais ao nível da incapacidade do jornal se assumir. O jornalismo tem sempre o sentido cívico de serviço público em que a opinião livre contra o poder é fundamental e isso marca a génese dos jornais e muitas vezes isso é perfeitamente diluído em termos do figurino hoje apresentado pelas televisões que é contar tudo rapidamente e, sobretudo, apostar numa linha de sensacionalismo.

P – Saiu desiludido com o jornalismo?

R – Não saí desiludido. Saí na perspetiva de que queria manter em relação ao que fiz no jornalismo uma imagem intacta e vivemos num país em que muitas vezes é melhor permanecer abdicando de princípios e de valores do que ter uma atitude de rotura em relação a uma situação que, de alguma forma, já não era aquela com que me identificava. Saí bem, tenho outras coisas que fazer e continuo ligado ao jornalismo.

P – Como ocupa o tempo agora?

R – Até digo com alguma ironia aos meus camaradas de ofício que foi preciso chegar a esta situação de “reformado” para perceber que ainda tinha menos tempo porque as coisas em que me tenho envolvido, exaltantes do ponto de vista de investigação, dão-me uma grande satisfação. Escrevo mais do que escrevia antes e escrevo coisas todos dias como forma de manter uma atenção crítica em relação às coisas e de salvaguarda da memória. Uma grande lição do jornalismo foi aprender que a memória dentro do jornal é absolutamente essencial e há um património de coisas que se cria semana a semana e ao longo de anos de batalhas contra situações absolutamente adversas como foi todo o trabalho realizado com a censura e com a suspensão do jornal até ao 25 de abril. Não se apaga da memória os milhões de palavras que constituem o acervo da história do Jornal do Fundão. O tempo dirá quem tinha razão em relação à visão crítica das coisas e aos próprios perigos que têm a submissão a outros interesses que não sejam meramente os de defender o serviço público, a região e falar com os leitores.

P – Tem saudades disso?

R – Disso tenho, mas contacto muito com os leitores e mantenho uma relação muito próxima. Isso é muito interessante do ponto de vista de perceber que as pessoas tinham uma relação muito próxima e eu, tendo uma posição política que assumi sempre cívica de esquerda e às vezes bastante severa do ponto de vista critico em relação às coisas, a verdade é que os testemunhos que recebi de pessoas que estão em áreas completamente diferentes da minha vieram dizer-me como se identificavam comigo. Achavam que esse tipo de intervenção permanente ao nível da região era crucial em relação à defesa dos interesses regionais.

P- Estaria disponível ou interessado para um eventual regresso a algum tipo de intervenção política [foi deputado à Assembleia Municipal do Fundão eleito pela APU]?

R – Política não. Em termos de intervenção partidária política pura e dura não me revejo nessa possibilidade embora a intervenção a nível cívico e cultural seja permanente. Se calhar agora participo mais em muitas iniciativas desse tipo, do que quando era diretor do jornal, porque as pessoas pensam que agora tenho mais tempo. Tive que parar alguns projetos que estava a desenvolver para responder a solicitações desse tipo mas essa é uma obrigação e um dever de cidadania que assumo com todo o gosto de pensar a região e de colaborar com as pessoas. Habito aqui e o que acontecer de bom na minha região independentemente do selo de origem que tenha em termos partidários fico satisfeito por isso se concretizar. Não podemos ser maniqueístas e pensarmos que as boas ideias não são repartidas por todos e essa capacidade de pensar e de divergir às vezes é que pode alcançar boas soluções para o quotidiano desta região. Continuarei a participar em iniciativas que possam contribuir para a melhoria da realidade.

Perfil

Fernando Paulouro Neves, 66 anos, nasceu no Fundão, e tem como hobbies fundamentais a leitura e a escrita. Escreveu em vários jornais mas na sua vida profissional esteve sempre ligado ao Jornal do Fundão primeiro como jornalista, depois como chefe de redação e como diretor, num universo de infância e familiar que começou muito cedo e que lhe permitiu despertar para o jornalismo. Optou por ficar na região porque o facto de o Jornal do Fundão ser «um projeto de resistência e com uma raiz tão forte na região permitia a larga compensação de um diálogo com os leitores e com uma proximidade com as coisas que não se alcançavam em jornais de dimensão nacional onde as coisas são muito mais efémeras».

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