Não há nada mais divertido, para um céptico, do que um ano de eleições. E não deve haver nada mais terrível, para um político, do que um ano de eleições em que não possa prometer nada. Este é o ano e podemos continuar a divertir-nos, que a crise nos transformou a todos em cépticos e as eleições pouca utilidade têm já senão a de nos ajudar a passar o tempo. De todas, a eleição para as autarquias locais é das mais promissoras como entretenimento gratuito e a que conjuga mais ingredientes dramáticos. Tem para além disso a vantagem de apresentar protagonistas mais próximos de nós. Isto para além do aspecto tão saboroso das promessas que sabemos de antemão não poderem ser cumpridas.
Lá iremos às promessas, a seu tempo. Para já, ainda precisamos de assistir ao alinhamento dos candidatos. No caso da Guarda, por exemplo, na pista dois, a do PSD, não aparece ninguém. É verdade que ainda falta mais de meio ano para começar a corrida, mas convinha começarem a ver-se as caras e as ideias. Não é morte de homem, nem nada que justifique a (aparente) aflição do Américo Rodrigues no seu blogue (http://cafe-mondego.blogspot.com/), e é suposto que ele o tenha percebido: pode ser tão só gestão do tempo dramatúrgico, aliás de forma incompetente, através da grotesca figura do “tabu”. (Julgam alguns ganhar vantagem com o adiamento das decisões. Assim, diz a lenda, vão manter a atenção sobre si durante mais tempo – mas é mentira, que as coisas não funcionam assim.) Também pode ser uma coisa muito mais simples: o PSD não apresenta candidato porque o não tem, ou não tem ninguém disposto a prometer tão pouco que mais valeria continuarem as coisas como estão. Mas não, o interesse do Américo na questão é apenas, penso, a satisfação da sua curiosidade. Quer ele saber, como eu e muitos outros, em tempo útil, se há alternativa ao actual estado de coisas e o silêncio do PSD parece indicar que não.
E lá iremos ao estado actual das coisas (que não é bom), que há outros motivos de curiosidade para o período pré-eleitoral. Irão todos os candidatos assistir em liberdade às eleições ou algum dos muitos processos pendentes em tribunal irá, por uma vez, acabar em tempo útil? Irá algum município, pela primeira vez na nossa história, apresentar-se à insolvência? Irá algum município resolver o problema do desemprego contratando todos (já faltou mais) os desempregados do seu concelho? Magnas questões estas e não vamos ver nenhuma delas respondida, para já, mas não faz mal que lá chegará o tempo.
O estado das coisas, insistirá o leitor, como está? Não o surpreenderei se lhe disser que está mal. O maior empregador privado do concelho da Guarda, a Delphi, apresentou-se à insolvência nos Estados Unidos e está prestes a abandonar-nos. O maior empregador público, a Câmara Municipal da Guarda, só não se apresenta à insolvência porque não pode. Fecham mais empresas do que abrem e perdem-se postos de trabalho todos os dias. A maior fonte de receitas da Câmara desde o início da democracia, constituída pelas taxas e impostos devidos pelas operações urbanísticas, revela-se agora uma venenosa armadilha e a principal causa dos nossos problemas, tanto urbanísticos como económicos. Dezenas de guindastes parados pendem melancolicamente sobre as ruas da cidade, cada um deles a servir mais uma obra inútil.
Perante este quadro, que outra atitude tomar senão a de um simples espectador, curioso mas céptico?
Por: António Ferreira


