Um lugar vazio num automóvel é dinheiro parado. A indústria viveu um século a ignorá-lo, e com razão: quem compra um carro quer cinco lugares mesmo que ande quase sempre sozinho. A 3 de Setembro a Tesla pôs a circular em Austin o primeiro carro desenhado por quem não tem de agradar a esse comprador.
A ocupação média de uma viagem em táxi ou TVDE anda pelos 1,4 passageiros. Quem explora uma frota olha para esse número e vê três lugares que quase nunca se ocupam e que nunca produzem receita. O Cybercab não os tem. Também não tem volante, nem pedais, nem espelhos, que só servem a quem conduz. Elon Musk nem apareceu ao lançamento, e essa é a parte menos interessante.
Parece uma questão de desenho industrial e é uma questão de propriedade. O Cybercab é o primeiro automóvel concebido de raiz para nunca ter dono, e há um século que se organiza a economia à volta do facto de os carros terem donos.
Em Portugal essa economia vale três mil e quinhentos milhões de euros por ano, valor a que se chega multiplicando os sete milhões e trezentos mil veículos do parque pelos quatrocentos e sessenta e cinco euros que cada um custa em manutenção. Somado assim parece um sector. Só as oficinas multimarca independentes são quatro mil seiscentas e sessenta, faturam em média cento e noventa mil euros por ano e seiscentas e trinta delas trabalham em nome individual. Um conjunto de contas de exploração deste tamanho nunca tem voz proporcional ao que vale.
Numa frota, o trabalho continua todo lá. Um carro que roda dez vezes mais gasta dez vezes mais pneus e travões, e alguém os tem de trocar. Muda é o sítio da rubrica. O que hoje é receita de milhares de empresas pequenas passa a ser custo de uma só, a mesma que fabrica o carro e vende a viagem. E uma empresa não defende um custo, corta-o.
Pode não acontecer. A Tesla tem quarenta e nove destes carros em Austin e o regulador americano abriu-lhe no dia do lançamento uma auditoria à forma como certificou um veículo sem volante. A Waymo, a empresa de condução autónoma da Alphabet, faz meio milhão de viagens pagas por semana com carros de cinco lugares e bem mais caros, e pode muito bem estar certa. Quem ganha o negócio está por decidir.
O modelo é que já não está. Seja com a Tesla ou com a Waymo, daqui a cinco anos ou a quinze, o automóvel deixa de ser um bem de que as pessoas são donas e passa a ser um serviço vendido ao quilómetro. A partir daí, tudo o que hoje é receita de quem repara, inspeciona, segura e ensina a conduzir migra para dentro da conta de quem fabrica. E lá dentro vale menos, porque lá dentro é despesa.
Na Beira Interior isto não é abstrato. A oficina é aqui um dos poucos negócios que não depende de turismo nem de época, emprega gente com formação técnica e não precisa de subsídio para existir. Vive de um pressuposto que ninguém pôs em causa em cem anos: as pessoas são donas dos seus carros e tratam deles perto de casa.
Falta dizer o que se perde, porque não é só o mecânico. Perde-se o carro como propriedade: a coisa que se compra em segunda mão, que se conserta em vez de se trocar, que se empresta a um filho e que há trinta anos vai à mesma oficina a duas ruas de casa. O Cybercab está desenhado para que nada disto seja preciso. É excelente engenharia. Também é a primeira vez que se fabrica um automóvel com a intenção deliberada de que ninguém o tenha.


