Opinião de Fidélia Pissarra: O misterioso êxito dos portadores da síndrome de Calimero junto dos guardenses

Escrito por Fidélia Pissarra

Do que consta, Calimero terá nascido há 63 anos mas, como daí até 1974, todos, incluindo nós, segundo Salazar, vivíamos habitualmente, só muito depois da revolução dos cravos é que a síndrome do dito por aqui terá começado a medrar até mais não. A data exata, em que isso aconteceu, ninguém saberá. A mais ou menos é do conhecimento de todos: um dia de verão. Por moda, esta nossa querida síndrome chegou com as festas que substituiriam os comícios políticos e nunca mais daqui desandou. Tanto assim será que, desde lá até cá, em cada nova temporada festiva ou de pendor festivaleiro, a podemos observar nas crianças, que correm a fazer de conta que brincam para se entreterem a eles mesmos, e nos adultos, que brincam a fazer de conta que correm para nos entreterem a nós. Vem isto a propósito das condições excecionais que alguém acha – muito bem achado – termos para sermos abençoados com uma das seis novas Áreas de Acolhimento Empresarial.
Claro que entre A23, A25, linhas da Beira Alta e Beira Baixa, posição geográfica, terrenos em barda e Porto Seco, à primeira vista, só podia ser bem achado. À segunda, apesar de poder continuar a ser bem achado, poderá já não o ser tanto como isso. Ou pelo menos a não ser tão bem achado por quem considera poder achá-lo assim sem mais delongas ou introspeções.
Se não, vejamos, tanto as autoestradas como a ferrovia disponíveis, passando pelo Porto Seco, decorrem mais das políticas do governo central do que da capacidade de influência e empenho da própria cidade que, de resto, por isto ou por aquilo, nem o problema de um hotel abandonado consegue resolver sem recorrer ao poder central e, mesmo assim, estamos para ver. Tal como não consegue resolver qualquer dos problemas com que no dia-a-dia nos confrontamos. Há anos que persistem os escombros desde a Praça Velha até à central de camionagem; persiste a degradação dos pisos das ruas e dos passeios por toda a cidade; persiste a perda de população e, acima de tudo, persiste esta síndrome de Calimero de nos acharmos injustiçados por tudo e por todos. Principalmente pelo governo central. Com maior acutilância e vocalização se o dito for do PS, claro.
Aqui chegados, poderíamos talvez começar a pensar na agenda para não sei que década, no projeto para não sei que parque, na candidatura para não sei que cultura e usar isso como desculpa para não termos mais do aquilo que se vê: nada que convença alguém de que somos capazes de fazer alguma coisa que se veja. Alguma coisa que reverta a constante perda de população, de influência e de qualidade de vida, em vez de passarmos o tempo a choramingar pelos cantos do poder que somos os injustiçados da Nação. É que, parecendo que não, isso tem-nos levado grande parte da energia que, desde há muito, deveríamos andar a gastar a fazer coisa que se visse.
Por fim, seria bom reconhecer que a síndrome do Calimero, como bem se entenderá depois de tanta modernice, até já terá passado tanto de moda como o vivermos habitualmente do outro. Aliás, terá passado de moda a síndrome e, com a bela idade de 63 anos, o próprio Calimero mais a sua meia casca de ovo a fazer de chapéu.

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Fidélia Pissarra

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