Opinião de Daniel Lucas: Entre Costa e Seguro, a Serra da Estrela espera

Escrito por Daniel Lucas

Há ideias que nascem nos gabinetes. Outras nascem no território e demoram anos a chegar a Lisboa. Algumas fazem esse caminho sem grande ruído, até que um dia aparecem no discurso de quem ocupa o lugar mais alto da República. Foi isso que me ocorreu ao ouvir o Presidente António José Seguro, nas comemorações dos 150 anos dos Bombeiros da Guarda.
Ao falar dos incêndios, da prevenção e das promessas por cumprir, Seguro foi particularmente incisivo sobre a Serra da Estrela. Recordou que, quatro anos depois dos incêndios de 2022, dos 155 milhões de euros anunciados para a sua recuperação, “quase nada foi investido”. Pediu passos concretos para revitalizar e proteger aquele património natural. Foi assertivo como ainda não tinha sido desde que tomou posse e deixou o recado a um Governo com um “balão de oxigénio”. A questão, porém, é que esta preocupação não nasceu agora.
Muito antes, já Sérgio Costa vinha alertando para esta questão. Em março, enquanto presidente da Associação de Municípios do Parque Natural da Serra da Estrela, levou-a à Assembleia da República. Aí, os municípios denunciaram que o Plano de Revitalização continuava praticamente por concretizar, apenas cinco ou seis projetos, num valor de cerca de cinco milhões de euros, tinham avançado, enquanto as restantes ações continuavam sem financiamento assegurado. Ou seja, aquilo que agora o Presidente da República coloca no discurso nacional já vinha a ser denunciado a partir do território. Ambos parecem convergir numa conclusão incómoda: o sistema faliu (falhou).
Não é uma questão de saber quem disse primeiro. É perceber a diferença entre uma reivindicação de um autarca e uma preocupação assumida pelo Presidente da República. Sérgio Costa fala a pa ABC Médico de Francisca Agrat rtir do território. António José Seguro fala agora a partir da Presidência. E quando a mesma preocupação faz este caminho, deixa de ser apenas uma questão da Guarda, de Seia, de Gouveia, de Manteigas ou da Covilhã. Passa a ser uma questão nacional. A Serra da Estrela não é apenas uma paisagem do interior. É património, água, floresta, biodiversidade, turismo, economia e segurança.
Aqui entra outra questão que o país insiste, demasiadas vezes, em adiar, a relação entre litoral e interior. Durante demasiado tempo, o interior foi olhado como um território a socorrer depois da tragédia, quando deveria ser encarado como um território a valorizar antes dela. A prevenção não começa quando aparece a primeira coluna de fumo. Começa muito antes, no ordenamento, na gestão da floresta, na limpeza, dos acessos, na água e na capacidade de intervenção. Começa, sobretudo, na capacidade do Estado de cumprir aquilo que promete. É por isso que o discurso de Seguro tem importância. Não porque venha descobrir uma preocupação nova, mas porque coloca no plano da responsabilidade nacional aquilo que os autarcas da Serra têm vindo a reclamar no terreno. A Serra não precisa de mais anúncios, nem de milhões inscritos em documentos que não chegam ao território. Precisa de execução. Revitalizar a Serra da Estrela não é apenas reconstruir o que as chamas destruíram. É preparar o território para aquilo que ainda aí vem. Talvez por isso seja tão simbólico que estas palavras tenham sido ditas na Guarda, diante dos homens e mulheres que há 150 anos sabem que prevenir é sempre mais difícil, mas muito mais inteligente, do que remediar. Os bombeiros sabem. Os autarcas sabem. Quem vive na Serra sabe. Agora, também o Presidente da República o diz.
Falta saber se, depois dos discursos, o Estado fará finalmente a sua parte. A Serra da Estrela já esperou demasiado.
Parabéns à Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários Egitanienses.

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Daniel Lucas

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