Há um mês em que o interior português parece desmentir todas as estatísticas.
É agosto.
De repente, as aldeias da Guarda enchem-se de carros, de crianças, de vozes e de abraços. Reabrem-se casas que permanecem fechadas grande parte do ano. Os cafés ganham vida, as festas enchem os largos, as procissões percorrem as ruas e as mesas familiares voltam a reunir filhos, pais, netos e irmãos.
Chegam de França, da Suíça, do Luxemburgo, da Alemanha. Chegam de Lisboa, do Porto e das grandes cidades. São os nossos emigrantes, os nossos migrantes internos, os filhos e netos de quem um dia partiu à procura de uma vida melhor.
Voltam porque têm saudades.
Voltam porque aqui estão as suas raízes.
Voltam porque, por mais longe que tenham construído as suas vidas, há uma terra que continuam a chamar “minha”.
Durante algumas semanas, agosto faz-nos acreditar que as aldeias estão vivas.
E estão.
Mas é precisamente por isso que agosto também deveria incomodar-nos.
Porque quando setembro chegar, muitos partirão novamente. As casas voltarão a fechar-se, os largos ficarão vazios, os cafés perderão movimento e muitas aldeias regressarão à realidade de todos os dias: envelhecimento, despovoamento, falta de emprego, serviços cada vez mais distantes e uma população residente insuficiente para garantir a continuidade de muitas comunidades.
Não podemos confundir a animação de agosto com a vitalidade permanente do território.
As festas são importantes. O turismo é importante. O regresso dos emigrantes é extraordinário. Mas não podem ser a única prova de que o interior existe.
Uma terra não pode viver apenas dos que regressam durante três ou quatro semanas.
Precisamos de políticas que permitam aos jovens ficar ou regressar. Precisamos de emprego, transportes, saúde, habitação, escolas, conectividade e oportunidades. Precisamos de olhar para as aldeias não como lugares destinados à nostalgia, mas como territórios onde ainda é possível viver, trabalhar, criar filhos e construir futuro.
Quando vemos uma aldeia cheia, percebemos aquilo que ela poderia ser. Quando vemos crianças a correr pelas ruas, percebemos aquilo que estamos a perder. Quando uma família emigrante se reúne à mesa, percebemos que ainda existe uma enorme reserva de afetos e de pertença ligada a estas terras.
Não desperdicemos essa força.
Os emigrantes não devem ser lembrados apenas quando chegam, nem apenas como consumidores das festas de verão. São parte integrante da comunidade, da história e do futuro destas terras. Muitos continuam a investir, a ajudar famílias, a recuperar casas e a manter uma ligação profunda às suas origens.
Mas também os que ficaram merecem reconhecimento.
São eles que mantêm as casas abertas, que cuidam dos idosos, que conservam as tradições e que sustentam, durante o inverno demográfico, aquilo que agosto torna visível.
Quando setembro chegar, os carros partirão.
Mas a nossa responsabilidade ficará.
Agosto mostra-nos que estas aldeias ainda têm alma. Cabe-nos garantir que tenham também futuro.
Porque uma terra não pode viver apenas da saudade dos que partiram.
Tem de ser capaz de oferecer razões para que alguns regressem.
E, sobretudo, razões para que outros nunca precisem de partir.
Boas férias!



