Bilhete Postal de Diogo Cabrita: A pornografia

Escrito por Diogo Cabrita

Há temas que me demoram mais a incorporar. Comprei as revistas, leio-as e o tema espera. Falta o mote, ou o gatilho, ou a adequação para sair em papel. “Hors-série” L’OBS nº 100 saiu em 2018 e o tema era a pornografia.
O pornográfico como assunto que estimula a discussão. Ele há os da rejeição, os da curiosidade, os do entusiasmo, os viciados. Na revista, o tema começa com o psiquiatra e antropólogo Philippe Brenot que nos coloca a definição: a pornografia é a representação do ato sexual e por definição uma transgressão, pois a nossa espécie caracteriza-se pelo imperativo do pudor. Os outros animais exibem a sexualidade. Nenhum se esconde. Na antropologia não existem imagens sexuais explícitas de humanos no paleolítico. Onde não há pudor não há obscenidade e este facto torna a ausência de imagens interessante para análise. O pudor tem sido uma distinção muito forte na educação dos dois sexos, pois a mulher foi muito castigada com ele, encontrando a libertação mais próxima da descoberta laboratorial do controlo da natalidade. A procriação era o discurso das religiões punitivas do prazer, pois este ficava mais para as outras, as não “oficiais”. Os seres humanos carregam na sexualidade quatro alterações em referência às espécies próximas: pudor, amor, ausência de cio, falta de estrutura rígida na ereção. Mas entre os primatas, o sexo maior está nos homens. A ereção é dependente de pensamento, desejo, estenose de um esfíncter e depois preenchimento sanguíneo dos corpos cavernosos! Um milagre do pensamento! Um milagre dependente de sistema neuro vasculares e comprometido por fármacos e seus efeitos secundários. Veio mais uma alegria para a sexualidade com a farmacologia que melhorou, ou tratou, algumas impotências. Muitos homens salvaram-se da abstinência completa.
Note-se que não há pornografia sem ereção. Outra característica distintiva dos dois sexos está na maturação induzida pela pornografia. Estudos comprovam que a visualização dos filmes é muito mais associada ao sexo masculino. O porno em homens chega a ser aditivo. Um facto interessante nos últimos 30 anos foi a chegada de mulheres à realização deste tipo de cinema e a introdução de erotismo onde a produção era muito grotesca e simples cópula sem história. Marc Dorcel faz uma pornografia delicada com mulheres sempre elegantes e que dirigem a aventura. Surgiram realizadoras que sofisticam o estilo, mas não fazem inovações, mas merecem a curiosidade: Albertina Carri (Argentina) Paulita Pappel (Espanha) Cândida Royalle (Estados Unidos).
A pornografia está hoje na internet através de visualizações privadas. Há milhões de mulheres e milhares de homens (o consumidor maioritário parece ser masculino) em exposição vídeo por inscrição! O “show” em direto, as “selfies” desnudas, o porno alternativo, convocam a uma revolução inesperada.
A pornografia está, pois, em transformação apesar de continuar um desafio ao pudor. Ultimamente, o pudor de alguma esquerda tem sido notado como uma das estranhas idiossincrasias ideológicas que acompanham estes fenómenos.

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Diogo Cabrita

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