Opinião de Diana Santos: Quando a terra nos lembra quem somos

Escrito por Diana Santos

Há algo de profundamente inquietante quando, em poucos dias, vemos a terra tremer num lado do mundo, a água engolir ruas inteiras noutro, o vento destruir casas em segundos e, pelo meio, a sucessão de notícias sobre vidas perdidas, escombros, desalojados e comunidades inteiras a tentar perceber por onde recomeçar.
Na Colômbia, um forte sismo voltou a lembrar-nos da força da natureza e a fragilidade das construções humanas. A Venezuela, ainda desfeita pelo duplo sismo, que atingiu o país há quase dois meses e que matou mais de 6 mil pessoas, ativou os protocolos de emergência após o terramoto sentido na Colômbia. Na China, um tufão deixou um rasto de destruição. Em Portugal, ainda não esquecemos os efeitos da tempestade Kristin, que há poucos meses atingiu com particular violência a região de Leiria.
É difícil olhar para as imagens que nos chegam destas catástrofes sem pensar nas pessoas que estão a vivê-las. Nas famílias que perderam alguém. Nas casas que deixaram de existir. Na vida que, de um momento para o outro, ficou amputada e pendurada, em vertigens de faca, entre o antes e o depois. É também difícil não pensar que, perante aquilo que não conseguimos controlar, há muito que podemos fazer.
O terramoto de 1755 continua a ser o exemplo mais brutal daquilo que Lisboa viveu. A terra tremeu, veio depois a fúria do mar, seguida de vários incêndios. A cidade foi praticamente destruída e morreram dezenas de milhares de pessoas, naquela que foi uma das calamidades mais devastadoras da história europeia. Passaram mais de dois séculos e meio, mas a possibilidade de ocorrência de um grande sismo em Portugal não desapareceu com a memória daqueles que o viveram; o risco sísmico é elevado e Lisboa continua a ser a região mais vulnerável, tal como o Vale do Tejo e Algarve.
O que mudou, desde 1755 até aos dias de hoje, foi a evolução e a precisão de ferramentas de identificação sísmica. Sabemos mais sobre os riscos, sabemos mais sobre a forma como se constroem edifícios. Sabemos mais sobre prevenção, emergência, evacuação e socorro. Temos tecnologia que há séculos atrás seria impensável.
A questão que se coloca é se estamos a fazer tudo o que podemos com esse conhecimento. É certo que não podemos impedir que a terra trema ou que uma tempestade aconteça, mas podemos decidir quanto investimos na prevenção, na qualidade das construções, na proteção de infraestruturas, na preparação dos serviços de emergência e, sobretudo, na formação das próprias populações.
Saber o que fazer perante um sismo, uma inundação, um tufão ou um incêndio deveria ser do conhecimento geral. Saber onde nos devemos dirigir, como ajudar alguém, como reagir sem criar ainda mais perigo, como proteger uma criança ou uma pessoa mais frágil. Esta informação deve chegar a todos e essa deve ser missão das entidades responsáveis: órgãos políticos (governos, câmaras municipais e juntas de freguesia); proteção civil; bombeiros; escolas; associações e instituições locais. A prevenção não pode ficar confinada aos manuais, aos planos de emergência ou aos gabinetes técnicos, tem que chegar às pessoas, de forma simples, clara e regular, porque, no momento em que uma calamidade acontece, não há tempo para procurar informação, apenas para reagir.
A dimensão dos efeitos de uma catástrofe natural pode, por vezes, resultar das escolhas que se fizeram antes da mesma acontecer. Onde e como se constrói. Que infraestruturas mantemos. Que territórios ocupamos e quanto se investe na prevenção.
É que a prevenção não faz parte do domínio das obras que dão votos. Não se fazem cerimónias de inauguração para o reforço de obras já edificadas e são menos umas poucas fotografias para o álbum de políticos vaidosos. O trabalho de prevenção é feito por quem realmente se preocupa com os que vêm depois de si e isso não é, como sabemos, para todos os políticos.
Devemos viver conscientes da possibilidade de ocorrência de calamidades naturais e talvez esta sucessão de fenómenos extremos nos obrigue a recuperar a humildade que fomos perdendo. A natureza não nos deve segurança. Somos nós que temos de construir sociedades capazes de viver num mundo onde o imprevisto acontece.
A responsabilidade de prevenção e de acautelamento de danos está nas nossas mãos, porque quando a terra voltar a tremer, o vento mostrar a sua força ou o mar a sua ferocidade, já será tarde para começarmos a pensar no que devíamos ter feito antes.
A prevenção é a melhor forma de segurança. Sejamos prudentes, porque nada mais podemos ser perante a força da mãe natureza.

* Presidente da concelhia do PS da Guarda

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