Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: Letra de máquina

Vejo e leio notícias, e o mundo não sossega mesmo quando uma pessoa entra de férias.
Em Ceuta, uma cidade que só não é marroquina porque os espanhóis a roubaram a Portugal, milhares de estrangeiros invadiram o enclave, deixando Pedro Sanchéz à beira de um ataque de nervos e com uma crise de hipocrisia. Quando, há alguns anos, os militares da República de Belarus largavam junto às fronteiras da Polónia e da Lituânia milhares de migrantes trazidos propositadamente do Médio Oriente para criar as mesmas tensões de que agora Sanchéz se queixa, o governo espanhol criticou não o chefe de kholkoz Lukashenka, mas os seus parceiros na União Europeia. Agora, pede uma solidariedade que em 2020 não quis ter.
Em Lisboa e em Barcelos, um ministro e um amigo brincam aos camiões TIR como eu brincava com carrinhos com os meus colegas na escola primária. Este é meu, hoje levas tu este para casa, amanhã traz o outro, e sempre às escondidas, porque sabíamos que os nossos pais, descobrindo, não gostariam do nosso sentido prático de troca de propriedade de pequenos veículos da Matchbox. E tal como o ministro, nós também estávamos sempre do lado de bem.
Noutro lado, um armazém gigante, parecido com aqueles que os drones ucranianos se entretêm a destruir por todo o lado na Rússia, mas este carregadinho de exames, tem dado muitas dores de cabeça no Ministério da Educação. Não percebo a indignação de quase tudo ter corrido mal. Quando é que em Portugal aconteceu alguma coisa em que tenha corrido tudo bem? Apesar da proverbial incompetência nacional, deve acrescentar-se que nos últimos 50 anos as coisas têm corrido melhorzinho. Diz que apareceu uma coisa chamada democracia, ou lá o que é.
A propósito da digitalização dos exames, conto aos leitores uma descoberta tecnológica que me poupou muita impaciência – a descoberta recente foi minha, a tecnologia já existia. Com uma aplicação de leitura digital, passei a fotografar os testes escritos naquelas grafias manuscritas ilegíveis exibida por muitos jovens universitários. Essa aplicação “lê” o teste e transcreve o texto para formato digital, em Arial ou Times New Roman, em vez do MT Extra em que alguns alunos escrevem. Nota: a aplicação só transcreve a letra manuscrita para letra de máquina. Os disparates na gramática e na teoria mantêm-se.
Na época de exames de Julho, usei a mesma aplicação associada a uma de tradução com uma finalidade que considerei humanitária. Num exame de uma disciplina em inglês, duas alunas estrangeiras, talvez por estarem nervosa, estavam com dificuldades de responder às questões em inglês. Com a sua concordância, responderam às questões nos seus idiomas nativos. No fim, digitalizei as respostas, pedi uma tradução para inglês numa aplicação reconhecidamente boa, as alunas releram as respostas na versão inglesa, concordaram que as traduções estavam de acordo com o que escreveram, e em casa pude ler as suas respostas numa letra e num idioma que eu entendo.
Já que as coisas no Irão e na Ucrânia parecem não estar para acalmar nos próximos meses, quem nos dera que houvesse uma aplicação digital semelhante a estas que nos ajudasse a entender o mundo da mesma forma simples que eu agora encontrei para ler os exames mais indecifráveis dos meus alunos.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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