Especial 19º Concurso de Vinhos da Beira Interior

«Temos projetos de cerca de 6 milhões de euros a decorrer que vão mudar o Sabugal»

Escrito por Sofia Pereira

Vítor Proença, presidente da Câmara Municipal do Sabugal

P – O que significa acolher a Gala dos Vinhos da Beira Interior, sendo que o Sabugal não é um concelho produtor de vinho?

R – É um ponto de afirmação e de divulgação do território, essencialmente. A gala decorreu no castelo de Alfaiates, que foi alvo de uma grande intervenção de cerca de 1,5 milhões de euros. A recuperação foi muito bem conseguida e é uma sala de visitas do território, daí termos escolhido esse monumento nacional para dar a conhecer o nosso vasto património aos produtores e a quem veio à gala. Quanto ao vinho, tentámos promover o graminês há uns anos. Ainda fizemos uns concursos, mas era um vinho fraco, sem grau, que não tinha grande expressão, mas que durante muitos anos esteve muito em voga. Era o vinho que as pessoas consumiam. No Sabugal temos alguns locais com potencialidade, mas não temos expressão no vinho. Há algumas vinhas no concelho cujas uvas são entregues a produtores como a 2.5 e sobretudo à Quinta dos Termos.

 

P – E como vê o trabalho da Comissão Vitivinícola Regional da Beira Interior?

R – Os vinhos da Beira Interior têm vindo a afirmar-se, como o comprovam os prémios que têm recebido. Isto também tem a ver com o trabalho excelente que a CVR, na pessoa do Rodolfo Queirós, tem vindo a fazer, mas também com os produtores, que souberam modernizar-se. Há 20 anos, os vinhos da Beira Interior não tinham expressão e, neste momento, são vinhos que se batem com qualquer outro no país.

 

P – O Sabugal já aderiu à rota enoturística que a CVRBI está a desenvolver. Como vê essa iniciativa?

R – É um projeto importante para a região, tanto mais que o concelho do Sabugal tem contributos importantes da área do património e da história do país. O vinho está sempre associado a qualquer atividade turística, é claramente uma referência e é através dele que promovemos depois o território. Aliás, a CVRBI traz à região nestes dias um conjunto de “players” internacionais, o que também vai promover mais o território lá fora.

 

P – Quando se fala em vinho, fala-se, obviamente, em gastronomia. Esta será também uma oportunidade para promover a carne produzida no Sabugal, que é uma fileira muito importante para a economia local?

R – Obviamente que sim. Temos uma gastronomia riquíssima, nomeadamente em termos de carnes, que é claramente um “ex-libris” do concelho. Apesar de não termos uma raça autóctone, o Sabugal produz carne de grande, grande, qualidade, fruto do nosso clima, das paisagens e do maneio do gado. Temos um leilão mensal onde transacionamos cerca de 100 a 150 animais, que vão praticamente todos para o Norte, para alimentar as grandes cadeias das postas mirandeses, das postas barrosãs, porque lá não há capacidade de resposta e a nossa carne é de igual ou melhor qualidade que a dessas raças. É essa fileira que temos que potenciar, tal como o cabrito da Serra da Malcata, a truta do Côa, o bucho raiano, cuja confraria foi distinguida na Feira de Santarém como um dos melhores eventos gastronómicos do ano. No fim de semana tivemos muita gente que não é daqui, com poder financeiro e está ligada a grandes empresas, pelo que a gala também foi uma forma de dinamizar a economia porque essas pessoas pernoitaram e comeram por aqui.

 

P – E como está o concelho do Sabugal em 2026?

R – O concelho tem registado – e os dados da Pordata e do INE confirmam-no – um ligeiro crescimento da população, muito fruto da imigração. Temos neste momento cerca de 14 nacionalidades na escola e cerca de 120 alunos estrangeiros. Muitas dessas famílias vieram reforçar um bocadinho a nossa economia social, que é muito forte, com 27 IPSS que empregam cerca de 1.200 pessoas, mas também a hotelaria e a restauração. Além disso, desde a pandemia da Covid que temos notado que os nossos emigrantes aposentados passam já 70 ou 80 por cento do seu tempo no território. Portanto, há mais gente no território e isto cria também algumas situações complicadas em termos de habitação, a que estamos muito atentos. Com a revisão da ITI da CIMRSBE no PT2030, vamos reforçar as verbas para disponibilizar alguma habitação mais acessível.

 

P – Em termos de projetos que possam fazer a diferença no futuro, o que está previsto?

R – Temos projetos de cerca de 6 milhões de euros a decorrer que vão mudar o Sabugal, nomeadamente a criação de uma nova área de localização empresarial que fica a cerca de 18 quilómetros da PLIE da Guarda e a 20 do Porto Seco. Já estamos em fase de obra, num investimento de cerca de 1,2 milhões de euros, para termos lotes disponíveis aquando da abertura do Porto Seco e da melhoria da EN 233, entre o Sabugal e a Guarda. Temos quase 22 milhões de euros para a requalificação da estrada, estamos em fase de projeto, que teve que ser revisto, por isso está um bocadinho atrasado. Estamos também a reforçar a zona de lazer da praia fluvial da Devesa, cuja terceira fase já está em obra para ter uma piscina ao ar livre com jogos de água e campos de jogos para as crianças, num investimento de cerca de um milhão de euros. Na barragem vamos criar um espaço de lazer com cerca de 1,5 hectares com parque de merendas, um ancoradouro de 60 a 70 metros e um espaço para guardar caiaques e canoas para reforçar a nossa estação náutica, que é a única aprovada no distrito da Guarda. Essa infraestrutura é extremamente importante, atendendo a que estamos a atrair muita gente da vela e da canoagem porque temos um espelho de água magnífico e, quando tivermos essas condições, iremos reforçar a prática desses desportos num “ex-libris” do Sabugal – a barragem – que não estava a ser aproveitado.

 

P – Qual é o investimento previsto nesse projeto?

R – São cerca de 1,2 milhões de euros, está em obra neste momento e a sua conclusão está prevista para o fim do ano. Em 2027 pretendemos ter no Sabugal uma secção de vela que já foi acordada com a Federação, no âmbito de um protocolo que iremos celebrar. Vamos ter aqui barcos em permanência e espaço para que equipas venham treinar e isso claramente é uma grande notícia para o território e para a promoção dos desportos náuticos nas águas do interior. Depois temos outros projetos, como a requalificação da rede viária, muito desgastada ultimamente. Foi aprovada uma candidatura de 3,4 milhões de euros, no âmbito dos incêndios, que já estamos a executar. O projeto está a desenvolver-se sobretudo na zona mais a sul do concelho, onde o incêndio incidiu.

 

P – Relativamente à EN233, o projeto está muito atrasado?

R – Está um pouco atrasado porque teve de ser todo refeito. Já estava numa fase bem adiantada, mas as Câmaras da Guarda e do Sabugal discordaram do que a Infraestruturas de Portugal propunha, que era uma intervenção minimalista. O Sabugal reivindica há muitos anos uma ligação condigna aos grandes eixos rodoviários da A25 e A23. E conseguimos, eu e o presidente da Câmara da Guarda, com a nossa persistência, que o ministro das Infraestruturas acedesse a essa pretensão e passássemos de uma verba de 5 milhões para 15 e depois para 22 milhões. Isso implicou que o projeto tivesse de ser todo refeito.

 

P – Mas essa é a solução que melhor servirá o Sabugal?

R – Neste momento acho que vai servir. A pergunta que me fazem sempre é porque não vai ter variantes e não terá porque isso seria o dobro do custo da obra.

 

P – Na última reunião de Câmara de junho, o executivo aprovou o projeto final da requalificação da escola secundária. Em que vai consistir?

R – Trata-se de um investimento de cerca de 10 milhões de euros que será financiado pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) porque o PRR já está fechado. É uma escola de prioridade P2, vamos fazer a candidatura até o final deste mês e está tudo pronto. É um investimento importante para dar mais qualidade aos nossos alunos e docentes, não só em espaço físico, mas em termos de ensino.

 

P – O município inaugurou há pouco tempo um espaço de coworking. Como está o projeto?

R – É um equipamento de última geração para trabalho partilhado e empresas de âmbito tecnológico, mas não só, servindo como incubadora. Já lá instalada a Servinform, que tem atualmente cerca de 20 funcionários a trabalhar num “call center”. A empresa conseguiu atrair três famílias oriundas da empresa-mãe, em Lisboa que vão fixar-se por cá. Já está a ser criada uma nova equipa de 10/ 12 pessoas para formação que serão depois integradas, portanto, neste aspeto está a correr bem. Além disso, estamos a avaliar cerca de 12 solicitações de cedência de instalações que, se tudo correr bem, levaremos à reunião de Câmara durante o mês de agosto. O pavilhão tem cerca de 20 espaços de tipologias diferentes para a instalação de microempresas, que, num território como o nosso, são uma mais-valia. Mas continuamos a debater-nos com a falta de mão de obra. A própria Servinform está com algumas dificuldades de recrutamento e até estamos a pensar fazer uma campanha em Espanha, para ver se conseguimos atrair algumas pessoas.

 

P – A Câmara do Sabugal lançou, no mandato anterior, um programa para fixar médicos. Como correu?

R – Foi um sucesso. Candidataram-se quatro médicos, que estão a trabalhar no Centro de Saúde, onde temos uma equipa muito jovem. O apoio é de 500 euros por mês durante três anos, além de outros benefícios para a construção de casa ou renda e outras isenções. Apoiamos ainda 15 Juntas de Freguesia com uma verba para terem um médico uma vez por mês. Damos um incentivo, tendo em conta a população e a área.

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Sofia Pereira

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