Cara a Cara

«Queremos divulgar Famalicão como “aldeia musical” e a fanfarra dá um importante contributo»

Escrito por ointerior

P – A fanfarra “Nem Fá Nem Fum” assinala 30 anos de existência. Como começou este projeto de banda de rua?

R – Tudo começou a partir de uma ideia de Vítor Amaral quando estava a trabalhar em Évora e conheceu um projeto que existia lá, chamado “Macacos de Rua”, dirigidos pelo Gregg Moore (trombonista e compositor norte-americano que desenvolveu um trabalho artístico relevante em Portugal, colaborando com várias instituições e artistas locais). O Vítor trouxe a ideia para Famalicão e desafiou, em 1996, um grupo de amigos a formarem uma banda de rua. Quase todos nós tínhamos passado pela Banda Filarmónica de Famalicão e tínhamos algum contacto com a música. Tivemos, no entanto, um trabalho de base no sentido de ensaiar alguns temas. Tempos depois, com o mesmo Gregg Moore tivemos outros ensinamentos e começámos a ir para a rua fazer alguns espetáculos, já com alguns arranjos mais elaborados. A primeira apresentação foi aqui na Guarda, numa atividade de animação de rua. A partir daí nunca mais parámos, com atuações na Expo 98, Porto 2020 e festivais temáticos culturais na nossa região e pelo país. Estivemos várias vezes em França e também em Espanha a representar a cidade da Guarda e Famalicão.

P – Qual tem sido a receita para esta longevidade?
R – Todas as semanas temos um ensaio. Convém dizer que cada um de nós tem uma profissão, um jornalista, um professor, um técnico, motoristas de pesados, etc. Juntamo-nos ao fim de semana para as apresentações com uma agenda bem recheada. O projeto tem continuado porque se foi renovando. Começámos com um visual e rapidamente fomos alterando para causar surpresa, de fatos tipo “gangsters” a uma indumentária de frades e, mais recentemente, uma roupa mais colorida, de turistas. Uma banda de rua tem essas características de apresentação. Atualmente, os óculos coloridos são, sem dúvida, uma imagem de marca dos Nem Fá Nem Fum. Quanto aos temas, também vamos inovando e atualizando o nosso repertório com novas interpretações de música tradicional e ligeira, músicas do mundo, muitas delas bem conhecidas do público.

P – Essa renovação tem passado também pela entrada de novos elementos, novos músicos, de Famalicão e de localidades próximas?
R – O caminho nem sempre foi fácil. A história menos boa por que passámos foi a perda de um dos músicos, o falecimento de Mário Ruano, em 2006, que nos acompanhou durante os primeiros 10 anos do projeto. Foi um elemento muito importante no grupo e essa perda foi o momento mais triste neste nosso percurso. Nunca baixámos os braços e tentámos sempre encontrar soluções. O Mário tocava percussão e não foi fácil substitui-lo. Do projeto inicial, dos fundadores, já faleceram três elementos. Foram momentos de tristeza, mas a sua presença é sempre por nós recordada em cada atuação ou ensaio semanal que fazemos. Neste momento temos três elementos dos Nem Fá Nem Fum que são de localidades vizinhas, dois de Manteigas e um da aldeia dos Trinta.

P – Trata-se de um projeto que incentivou o aparecimento de grupos de animação musical um pouco por toda a região?
R – Este projeto de banda de rua foi pioneiro e provocou a possibilidade de surgirem projetos do género na região. Ao longo destes 30 anos fomos sempre incentivando o aparecimento de grupos idênticos, mesmo no Centro Cultural de Famalicão incentivámos ao aparecimento de outros projetos musicais, como, por exemplo, o grupo de concertinas e o grupo de cantares de Famalicão. Fora da nossa associação, penso que também demos um estímulo ao surgimento de grupos de folclore, concertinas, cantares, etc. É um projeto que tem provocado um valor cultural e social e gerado, obviamente, uma receita para a associação. Sendo um “escape” de fim de semana, tudo o que advém em termos de receitas dos espetáculos é importante para o Centro Cultural. Comprámos uma carrinha, renovámos a indumentária, atualizámos os instrumentos musicais e organizámos várias iniciativas, como a “Fanfarronada” no próximo fim-de-semana, de comemoração dos 30 anos dos Nem Fá Nem Fum. Continuamos a ter como um dos principais objetivos divulgar Famalicão, como a “aldeia musical”. A existência de vários grupos na nossa associação (Centro Cultural) leva-nos a tentar cimentar esta ideia de Famalicão da Serra como aldeia da música.

P – O evento “Fanfarronada” é o grande momento de celebração do 30º aniversário da Fanfarra?
R – Tenho a certeza que esta forma de comemorar o 30º aniversário dos Nem Fá Nem Fum, esta “Fanfarronada” no próximo fim de semana, é um dos passos da receita para continuarmos a nossa caminhada. Queremos mostrar aos nossos músicos e a toda a comunidade que temos um trabalho consistente, que temos um percurso de esforço, empenho e dedicação com três décadas de atividade.

P – E como surgiu o nome “Nem Fá Nem Fum”?
R – O nome Nem Fá Nem Fum está muito relacionado com aquilo que nós apresentamos. Pode até parecer que somos músicos que fazem teatro e atores que fazem música, tem muito a ver com essa ideia… É o efeito surpresa. Nem é uma coisa nem outra, nem sim nem não, mas, ao mesmo tempo, é tudo em conjunto, ou seja Nem Fá Nem Fum.

 

Entrevista a Alexandre Horta, Presidente do Centro Cultural de Famalicão e membro fundador da fanfarra “Nem Fá Nem Fum”

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