Opinião de António Ferreira: Ninguém ao leme

Escrito por António Ferreira

Acredito em números e embora não goste de fazer contas compreendo e aceito a sua necessidade. Acredito também que as propostas dos partidos políticos e as decisões do governo, ou as leis do parlamento, devem partir de boas contas.
Vou agora incomodar-vos com alguns números. A pensão média da Segurança Social é, em 2026, de 611 euros brutos por mês. Em 2026, recebem o salário mínimo nacional entre 21 e 23% dos trabalhadores. O salário bruto mensal (contando com subsídios de férias e de Natal e a sua distribuição pelos 12 meses) situa-se entre 1.450 e 1.550 euros por mês. Mais de metade dos trabalhadores recebe menos de 1.000 euros líquidos por mês. A reforma típica de um trabalhador que atualmente receba o salário mínimo (920 euros) vai ser algures entre 650 e 750 euros brutos.
Falemos agora de rendas de casa. O valor médio de uma renda contratada em 2024 era de 7,97 euros por metro quadrado. Se o leitor quiser fazer as contas, para um pequeno apartamento de 80 metros quadrados vai encontrar uma renda de 637,60 euros – valor inferior ao da reforma média.
Vamos agora recapitular algumas notícias e dados recentes. As medidas fiscais de “apoio” e resposta à crise da habitação provocaram objetivamente um aumento das rendas e do valor das casas novas, tendo em conta os critérios definidos: o governo considera moderada uma renda de 2.300 euros e aprovou benefícios fiscais para quem coloque no mercado habitações com um valor até 450.000 euros. O governo procura modificar a legislação laboral diminuindo os direitos dos trabalhadores e permitir o banco de horas individual, acabando na prática com o pagamento de trabalho suplementar. O Chega propõe a diminuição da idade da reforma em dois anos e a sua atribuição aos 65 anos de idade e 40 de descontos. No último ano saíram de Portugal cerca de 45.000 imigrantes.
Perante estes dados e notícias, nem seria necessário retirar conclusões, a não ser uma: ou são burros, ou pensam que o somos. Num país envelhecido, em que já não nascem crianças suficientes para manter a atual população, reduzir a idade da reforma implica que cada reformado desconte menos dois anos e a Segurança Social tenha de pagar mais dois. Num país em que os imigrantes têm contribuído de forma significativa para o equilíbrio financeiro da Segurança Social, o governo e o Chega decidiram hostilizá-los. Num país em que a reforma média é inferior à renda média e em que o salário mínimo prevalece, o governo legisla para os ricos.
Os gnósticos diziam que o mundo é um barco e que é o diabo quem vai ao leme. Portugal é um barco também, mas não vejo ninguém ao leme.

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